Folha de S.Paulo

Novo ensino médio dá autonomia e flexibilidade para o estudante


Os números do ensino médio no Brasil assustam: de cada 100 alunos que concluem essa etapa da educação nas escolas públicas e particulares, só 7 aprenderam o esperado em matemática. Em língua portuguesa, temos uma situação um pouco melhor, mas não menos preocupante: 28 aprenderam o conteúdo de forma adequada.

É um cenário grave e que requer mudanças, especialmente porque chegamos a índices ainda piores do que já estávamos há 15 anos.

Não bastassem os dados alarmantes da baixa aprendizagem, há diversos outros que reforçam o atual drama. Por ano são 546 mil jovens que abandonam o ensino médio -o que representa perda de R$ 3,3 bilhões, considerando o valor médio de R$ 6.021 investido anualmente por aluno. Como consequência, o país tem cerca de 1 milhão de jovens entre 15 a 17 anos fora da escola e sem fazer nenhuma atividade laboral!

A principal causa dessa tragédia está numa escola chata, que não dialoga com os alunos, não atende às suas expectativas e tampouco às demandas do século 21.

A reversão desse quadro passa por um novo ensino médio, que seja a ponte não só para o ensino superior ou o mundo do trabalho, mas também uma oportunidade para que os jovens desenvolvam potenciais, vivam com autonomia e façam escolhas.

É uma questão urgente a ser resolvida. Nesse sentido, vejo a reforma como uma resposta a esse cenário grave e que se manteve inalterado por anos. Acredito ser este o momento de multiplicarmos esforços para acelerar a reforma, até para evitarmos que os êxitos alcançados pelo Brasil nos anos iniciais do fundamental não se percam.

Entre os pontos positivos da mudança há a expectativa de que a nova estrutura seja um caminho de aproximação do ensino com a realidade dos jovens e coerente com as demandas profissionais.

Tal expectativa surge não só da flexibilidade que se coloca, mas da perspectiva do quinto eixo vinculado ao ensino técnico, além das quatro áreas do conhecimento.

O modelo depende do sucesso da construção da Base Nacional Comum Curricular.

É preciso, por outro lado, ter clareza de que as propostas da lei são só o primeiro passo e que o mais difícil é a implementação. Isso exigirá uma nova organização da escola, além de investimentos na infraestrutura e na gestão. Ter um marco legal é essencial, mas não suficiente para garantir uma mudança no dia a dia, e ainda há muita dúvida e pouco conhecimento sobre as reais possibilidades abertas pela reforma.

O que fazer em municípios que têm apenas uma escola com ensino médio, em termos de itinerários formativos oferecidos, e como combinar modelos diferentes que as redes possam oferecer para atender à lei são alguns dos pontos a serem esclarecidos.

Também não podemos nos esquecer daquilo que parece o essencial dos pré-requisitos para o sucesso da reforma: a formação de professores. Uma formação capaz de atender as demandas de um novo tempo, e que, de fato, ajude o professor a aterrissar seus conhecimentos no chão de escola, além de materiais pedagógicos compatíveis com uma educação integral e adequada ao século 21.

Mozart Neves Ramos é diretor de articulação e inovação do Instituto Ayrton Senna