Folha de S.Paulo

Ensino médio já passou por três grandes reformas desde Getúlio Vargas


Esta não será a primeira vez que o ensino médio brasileiro passará por uma mudança significativa. No passado, estudantes e professores já se depararam com momentos parecidos com o que está por vir em 2019.

Em 1942, no governo de Getúlio Vargas, foi instituída a Reforma Capanema do Ensino. A mudança recebeu esse nome por conta do então ministro da Educação e Saúde, Gustavo Capanema, e dividiu o ensino secundário em dois: clássico e científico.

Se compararmos com a nova reforma, existe uma semelhança: os estudantes podiam optar por qual caminho seguir. Mas, na prática, era bem diferente do futuro modelo. O clássico era mais focado em filosofia e línguas (incluindo latim, espanhol e grego). Já o científico oferecia mais disciplinas voltadas para ciências e exatas.

Segundo especialistas em educação, esse sistema elitizou a escola secundária, e as classes de menor renda passaram a procurar cursos técnicos em escolas como Senai e Senac, criadas nessa época.

Em 1946, foi instituído o ensino normal (magistério), que preparava estudantes (praticamente só meninas) para trabalhar com professoras de escolas primárias.

Esse sistema foi modificado em 1971, quando o ensino foi dividido em primeiro e segundo graus -na última opção, as escolas públicas tinham de oferecer cursos profissionalizantes, como secretariado, química, agropecuária e mecânica. O modelo fracassou e, em 1982, uma lei decretou o fim dessa obrigatoriedade.

Em 1996, houve outra mudança com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação: as disciplinas de filosofia e sociologia foram incluídas currículo. Esse é o modelo hoje.

Vera Aulicino, 71, professora aposentada, viveu todas essas fases. "Fiz o magistério na adolescência. Naquela época muitas famílias achavam que as meninas não precisavam de faculdade. Então elas faziam o ensino normal para dar aula e se casar." Depois, foi professora de escola pública e, há 20 anos, concluiu o curso superior para continuar lecionando.

Para a educadora Tania Fontolan, quando um adolescente entra no ensino médio ainda é jovem para escolher o caminho a seguir. "Será que faz sentido fazer essa escolha nessa fase da vida, quando é preciso uma visão mais ampla do mundo?", questiona.

O estudante do Anglo 21, de Santo Amaro, Ricardo Nogueira do Carmo, 14, discorda. "Quero seguir carreira aeronáutica e sei que no vestibular do ITA não cai biologia. Então fazer o ensino médio focado em exatas seria a melhor opção para mim", diz.

Já Steffany Viana Fernandes, 17, aluna da escola estadual Godofredo Furtado, de Pinheiros, teme que o jovens saiam prejudicados com a reforma. "Acho interessante o aluno que tem mais facilidade com humanas escolher essa área, como era antigamente. Mas, se o conteúdo que temos hoje é pouco para prestar um vestibular, imagine como ficará depois", diz.

1942
Divisão curso secundário entre clássico (ênfase em filosofia e em línguas) e científico (mais ciências e desenho). Duração de três anos e carga horária de 30 horas semanais. O ano letivo vai de 15 de março a 15 de dezembro, com folga de sete dias em junho

1946
Criação do ensino normal para formar docentes de escolas primárias (entram no currículo caligrafia, trabalhos manuais e economia doméstica). Carga horária de 28 horas semanais. O ano letivo é o mesmo do clássico e do científico, mas as férias de junho duram 15 dias

1971
Educação é dividida em 1º e 2º graus (não mais entre primário, ginásio e secundário). Escolas públicas devem se tornar profissionalizantes. Carga horária total passa para 2.200 horas divididas nos três anos. O currículo é o mesmo para todos: português, matemática, física e história, além de educação moral e cívica e OSPB (organização social e política brasileira)

1982
Cai a obrigatoriedade do ensino profissionalizante. Há migração para escola privada e proliferação de cursinhos pré-vestibular

1996
O 2º grau vira ensino médio. Currículo, com 13 matérias, inclui sociologia e filosofia. A carga horária anual é de 800 horas

2017
É sancionada a lei que reforma o ensino médio

Fontes: Constituição e artigo "Breve histórico do ensino médio no Brasil" (Rulian Rocha dos Santos/Uesc)