Folha de S.Paulo

Fiocruz desenvolve técnica que enxerga zika dentro de célula humana


Um laboratório da Fiocruz no Paraná está realizando um teste inédito no país para o diagnóstico por imagem do vírus da zika.

Os equipamentos, que estão em operação há cerca de seis meses, conseguem "fotografar" a ação do vírus nas células e aumentam a precisão e a escala do diagnóstico –já que têm capacidade de analisar cerca de 1.500 amostras por hora.

"É um número fantástico", diz a virologista Cláudia Nunes Duarte dos Santos, chefe do Laboratório de Virologia Molecular da Fiocruz Paraná. O grupo foi responsável pela confirmação, através do sequenciamento do genoma viral, em maio de 2015, da presença do vírus da zika em oito amostras vindas do Rio Grande do Norte.

O Brasil registrou, para se ter uma ideia, 215 mil casos prováveis de zika durante todo o ano de 2016.

A média é de 4.000 casos notificados por semana –amostras que seriam analisadas em pouco menos de três horas de trabalho no novo equipamento.

"Isso vai mudar a cara do diagnóstico que está sendo feito hoje", avalia Santos.

Uma das vantagens da nova técnica, por exemplo, seria promover o teste em um número expressivo de pessoas a um custo baixo –e não somente em grávidas ou pacientes que apresentam sintomas, como é feito hoje.

Quem vive em áreas de risco para o mosquito Aedes aegypti ou quem planeja engravidar e quer saber se foi infectado pelo vírus, poderia passar pelo diagnóstico.

"É uma doença com desdobramentos muito grandes, com impacto social, bebês com malformações, e que nem sempre apresenta sintomas", comenta a virologista. Para ela, o teste abre uma perspectiva de tratamento e planejamento familiar.

Outra vantagem é a exatidão do teste: ele consegue diferenciar zika e dengue com uma precisão de 91% –a média dos exames feitos hoje é de 50%.

Os dois vírus, ambos transmitidos pelo Aedes aegypti, são da mesma família e apresentam reações muito semelhantes. "Eles compartilham as mesmas proteínas; é muito difícil", diz Santos. Com o diagnóstico por imagem, a diferenciação entre os dois é mais precisa.

Isso diminui a chance de falsos positivos e dá mais efetividade ao tratamento.

Atualmente, o Ministério da Saúde aplica outros dois testes para o diagnóstico da zika. Um deles, desenvolvido pela Bahiafarma, faz um diagnóstico rápido da doença em gestantes com sintomas e outros grupos prioritários, a partir de uma amostra de sangue, em até 20 minutos.

Outro, desenvolvido pela Fiocruz do Rio, faz a diferenciação entre zika, dengue e chikungunya, mas apenas em pacientes que estejam na fase aguda da doença, com sintomas.

A nova tecnologia está em processo de patenteamento e em fase final de validação. Até agora, cerca de cem amostras foram testadas. No mês passado, o laboratório começou a receber amostras de pacientes da rede pública, encaminhadas pelo Laboratório Central do Paraná, para serem analisadas pelo novo protocolo.

A expectativa é que, a partir do final do ano, a Fiocruz Paraná ajude a descentralizar o diagnóstico de zika em uma eventual epidemia, recebendo amostras das regiões mais afetadas e aumentando a velocidade e precisão do tratamento.

O laboratório tem duas máquinas que realizam o teste –cada uma custa cerca de R$ 2 milhões. Uma delas foi financiada pelo BNDES, e outra, doada por uma instituição filantrópica europeia.

No futuro, a ideia é que outros vírus emergentes possam ser diagnosticados com o mesmo aparelho, como a febre amarela. Os pesquisadores da instituição já começaram a trabalhar no desenvolvimento de protocolos para outras doenças.

Novo teste da Fiocruz identifica vírus da zika por imagem

Centenas de amostras são colocadas em um equipamento semelhante a um freezer

A máquina "fotografa" a ação do vírus da zika nas células

Em uma hora, cerca de 1.500 amostras são testadas simultaneamente