Folha de S.Paulo

Bruno Rangel trocou futebol por banco e faria festa para filha na sexta


Maior artilheiro da história da Chapecoense com 81 gols em 169 jogos, o atacante Bruno Rangel, 34, já havia desistido do futebol antes de chegar ao clube catarinense. Ele foi uma das 71 vítimas de acidente com avião que levava a delegação da Chapecoense a Medellín para a disputa da final da Copa Sul-Americana.

Depois de amargar a reserva do Americano, de Campos dos Goytacazes (sua cidade natal), em 2006, ele foi trabalhar como auxiliar de serviços gerais numa agência da Caixa Econômica Federal no centro do município, distante cerca de 280 km da capital.

O emprego durou pouco. Meses depois, Rangel foi demitido do banco. Sem opção no Rio, ele foi indicado por Sergio Espírito Santo, especialista em futebol do interior do Rio, para o ex-lateral Charles Guerreiro.

O ex-jogador do Flamengo começava a carreira como treinador no Ananindeua, do Pará, e aceitou a dica. Lá, o atacante deslanchou. Foi artilheiro do time e começou a percorrer o país jogando futebol.

"Ele era um atacante ao estilo antigo, que não ajuda na marcação. Mas fazia muitos gols. Era o melhor que vi jogar com a cabeça", lembra Espírito Santo, que, além de "garimpeiro" do futebol, é famoso na cena rock fluminense (foi vocalista da banda punk Tubarões Voadores).

Antes de chegar à Chapecoense, o atacante foi um "cigano da bola". Jogou em oito times até ser contratado pelo clube da cidade do oeste catarinense, onde fez história.

Em 2013, Rangel marcou 31 gols em 34 jogos pelo Campeonato Brasileiro da Série B. Na primeira divisão, ele brilhou no ano seguinte e foi para o Qatar.

"Foi a transferência em que ele fez a independência financeira. Foi para lá para ganhar R$ 200 mil por mês, mais ou menos. Ao todo, lá ele deve ter conseguido juntar uns R$ 2 milhões. Mas para ele, o importante era a família. Assim que chegou, ele queria que a mulher e a filha estivessem lá, mas elas tiveram algum problema com passaportes e demoraram, e ele não conseguia se conformar, e isso o atrapalhou no início", diz Anderson Nasralla, empresário de Rangel.

Menos de seis meses depois, o atacante voltou para a Chapecoense.

Os gols em Santa Catarina fizeram o jogador ajudar a família, que ainda mora em Guarus, bairro pobre de Campos. Rangel era o caçula de 11 filhos.

Sua mãe mora numa casa reformada pelo jogador no bairro, que virou ponto de concentração de amigos e familiares nesta terça.

"O Bruno era aquele jogador que parecia que dormia em campo. Ele não dava pique para marcar ninguém, mas era um rapaz muito trabalhador e finalizava bem com as duas pernas. Fica a saudade", disse Charles Guerreiro, que treina o Paragominas, do Pará.

O zagueiro Demerson, 30, era um dos melhores amigos de Rangel no elenco. Ele não foi relacionado para a partida pelo técnico Caio Júnior e por isso não estava no voo.

"Ontem à noite, mandei áudio por WhatsApp para o Bruno desejando boa viagem e boa sorte. Apareceu que a mensagem não tinha sido entregue. Passaram algumas horas, já era meia-noite aqui, olhei e a mensagem ainda não tinha sido entregue. Achei estranho, comentei com a minha mulher, disse 'ué, será que eles ainda não chegaram?'. Dormi e acordei às quatro da manhã, com meu filho chorando. Ele tem dois anos, a mesma idade do filho Bruno. Peguei o celular, fui ver que horas eram e então vi centenas de mensagens. Troquei de roupa e fui direto à Arena Condá. Ainda não caiu a ficha", diz o zagueiro, inconformado e aos prantos.

Demerson conta que a filha de Bruno, Bárbara, faria seu aniversário de oito anos nesta quarta-feira (30), e que a festa já estava marcada para sexta-feira (2). Além dela, Bruno deixa também um filho, Daniel, de dois anos, e a esposa Girlene Rangel, com os quais viajaria para a Disney ao final da temporada.

"Ele era excepcional, tínhamos uma afinidade muito grande. Somos cristãos, frequentávamos a Igreja Quadrangular [evangélica] com o Gil e o Ananias [que também morreram no acidente]. Lembro que brincávamos com ele, que às vezes ele aparecia no treino com umas roupas que não combinavam. Uma vez ele foi com um tênis [da marca] Asics, uma calça jeans e um cachecol e ficamos brincando que ele tinha pego a toalha de mesa da vó dele", relembra o zagueiro.

"Todos os amiguinhos da Bárbara são de Campos, e desta vez ela faria a festa dela em Chapecó, estavam todos empolgados. Agora não vai ter mais", diz Gilmax de Azevedo, cunhado de Bruno.

"Vejo as imagens na TV, as legendas que falam dos jogadores da Chapecoense, e somos nós, sou eu também. Aquelas pessoas nas imagens não estarão mais no dia a dia comigo trabalhando, brincando. A ficha não caiu", conclui Demerson.