Folha de S.Paulo

Mustafá diz que cartolas 'jurássicos' voltaram porque sucessores falharam


O celular antigo, com toque monofônico e já raro nos dias atuais, apita sobre a mesa. "Musiquinha chata, né? Comprei nas Casas Bahia".

Mustafá Contursi, 76, se pauta pela discrição, mas é há décadas a figura mais eminente das alamedas palmeirenses. Nas palavras de Maurício Galiotte, atual presidente, "é o maior líder político" do clube.

Autoproclamado "jurássico", faz parte de uma geração da cartolagem que, entra ano, sai ano, continua com grau máximo de influência no futebol brasileiro. Eurico Miranda, 72, Carlos Augusto de Barros e Silva, o Leco, 79, e Marco Polo Del Nero, 76, respectivamente presidentes de Vasco, São Paulo e CBF, são alguns de seus contemporâneos que seguem no comando.

Conselheiro do Palmeiras, Mustafá ganhou tudo que disputou nos últimos meses: ajudou Galiotte a se tornar presidente; conseguiu a maioria de eleitos no conselho deliberativo; elegeu o presidente do órgão; conseguiu maioria no conselho de orientação fiscal; e teve sucesso em confirmar Leila Pereira, dona da Crefisa, patrocinadora do clube e sua amiga, no cargo de conselheira.

À Folha, ele comenta as polêmicas envolvendo a candidatura de Leila Pereira; explica o porquê de sua geração de cartolas ter ainda tanta força; e reitera a palavra-chave que virou sua marca registrada: austeridade.

Folha - O que o clube precisa fazer nos próximos anos?
Mustafá Contursi - Tenho uma percepção de que o clube tem que passar por uma redução de 20% das despesas em todos os setores. Essa tem sido minha manifestação a todo o momento no conselho de orientação fiscal.

O Galiotte tem dito que vai quitar toda a dívida do clube até o final do mandato. Acredita que ele vai conseguir?
Acredito que sim, se ele reduzir 20% das despesas de todo o clube. Tem departamento que precisa reduzir até 80%, que é cabide de emprego. Um deles é o marketing, que não produz nada e só gera despesa. O patrocinador do Palmeiras, que hoje é o maior do Brasil, pegou o telefone e ofereceu o contrato. Eles argumentam que a receita do marketing vem do licenciamento. Mas os fabricantes de canetas e capas de celular que procuram o clube para fazer o licenciamento. Queria saber se esses caras do marketing foram até a Nestlé para vender o nosso distintivo para colocar no iogurte. Ou se foram na Vulcabrás. Não foram a lugar algum (...) Nenhum contrato de licenciamento foi produzido pelo pessoal do marketing. Encheram de CEOs lá.

Austeridade deve ser o foco?
Primeiro, precisamos sanear as contas. Depois, temos que lidar com austeridade com as contas. Essa é minha opinião, mas não tenho nenhuma influência sobre a diretoria.

O senhor apoiou Galiotte na eleição e acumulou vitórias nos conselhos deliberativo e fiscal. Por que segue tendo tantos aliados no clube?
Durante alguns anos, fui hostilizado de forma até agressiva. E os que vieram depois de mim levaram o clube ao caos. Houve, então, um reconhecimento de que a minha geração tinha mais qualificação do que a que sucedeu. Os conselheiros e associados enxergaram isso. O clube regrediu muito em todos os setores. Eu não faço nada, não quero me envolver muito intensamente, mas tomo posição, sempre. Sou sócio do clube desde 1951, pertenço à diretoria desde 1965.

O senhor gosta de viver a política do futebol?
Não se trata de gostar, mas de se envolver. Sob o aspecto de vaidade pessoal ou de achar que é algo que me completa, absolutamente não. Mas me envolvi e tenho responsabilidades. Tem muitos companheiros comigo, e as decisões deixam de ser somente individuais. Eu conhecia aquilo em que eu estava envolvido, e aí fica muito mais fácil do que depender dos caras do entorno, que às vezes te enganam muito, principalmente executivos e profissionais. Tem muito profissional que trabalha para o interesse dele, e não da coletividade.

Qual é o seu legado para o clube?
O Palmeiras nunca deixou de crescer porque por anos o lema foi equilíbrio financeiro, garantia do patrimônio e arrojo na administração das atividades. O Palmeiras sempre foi pioneiro: foi o primeiro clube a adotar profissionalismo; o primeiro a fazer um contrato de patrocínio na camisa; o primeiro a fazer contrato de fornecimento de material esportivo.

A candidatura da Leila Pereira ao conselho do Palmeiras foi fundamentada em um título de sócia que você teria concedido a ela em 1996. Como foi essa circunstância?
A concessão de uma condição de sócio patrimonial remido é ato administrativo, e foi o que fiz em 1996. Por alguma razão, os documentos se extraviaram do clube, como já aconteceu com muitas outras coisas lá, até mesmo troféus, que foram parar em ferros velhos. Eu apenas atestei que em 1996 eu promovi o ato para atrair pessoas para o seio do Palmeiras. Criaram um cavalo de batalha porque era uma questão política que envolvia pessoas da gestão anterior. Foi um problema de relacionamento.
Em 1996, eu achava que essas pessoas [José Roberto Lamacchia, dono da Crefisa que também se elegeu conselheiro, e sua mulher, Leila Pereira] poderiam estar, no futuro, junto ao clube. O Zé Roberto [Lamacchia], pessoa da minha relação, era sócio vitalício, e não queria perder essa condição para adquirir um plano família. Por isso, concedi o título à esposa dele [Leila]. Infelizmente, as pessoas do clube que estavam nesse processo já morreram todas. Se alguém estiver muito interessado, que vá em uma mesa branca.

Há quem duvide da existência desse título...
Quem duvida, continua duvidando. Quem não duvida, deu 200 e tantos votos para aprovar a candidatura.

O ex-presidente Paulo Nobre era contra a candidatura e tentou impugná-la. Como ficou a relação entre vocês?
Respeito muito, o Palmeiras deve muito a ele, mas infelizmente ele fez uma viagem assim que deixou a presidência e disse que assim que voltasse me procuraria. Até hoje, não tive mais contato. Infelizmente, porque o tenho em grande consideração, que fez um grande esforço pessoal para a organização do clube.
Não houve rompimento, acho que é mais uma questão de isolamento (...) O que aconteceu foi: a candidatura da Leila foi homologada, o Paulo, por meio de um infeliz parecer jurídico, revogou isso, e eu apresentei outras provas circunstanciais de que aquilo era algo corriqueiro no clube, que já tinha acontecido dezenas de vezes. A única vez em que contestaram a verdade foi neste caso.

Ele pediu afastamento do conselho fiscal, não?
Isso é bobagem, foi o Paulo fazendo tipo, digo jocosamente. Ele é membro nato do COF, então nem precisaria pedir afastamento, já que sua presença não é obrigatória em reuniões. O pedido é inócuo. Ou talvez a primariedade dele como membro do COF tenha influído.

Na sua visão, por que não querem a Leila Pereira como patrocinadora e conselheira?
Futebol é um exercício de memória. O Palmeiras denunciou o contrato da Samsung e até hoje existe ação judicial. Perdeu o contrato com a Fiat por ter dado o contrato como garantia em duas operações bancárias. Perdemos a Kia depois de cairmos para a Série B e a empresa nem deu mais resposta ao clube e se mandou. Ficamos dois anos sem patrocínio. Aí chega um patrocinador de maneira espontânea, que liga para o clube e oferece o contrato, e depois de um ano arranjam briga com ele? E isso se arrasta até agora. Não quero saber quem está ofendido, o Palmeiras está acima de tudo.

Como ter austeridade e montar um bom time?
Você precisa ter 80 jogadores contratados, que é o que o Palmeiras tem mais ou menos hoje, para jogarem só 15 ou 16? Todo início de temporada trazemos dez jogadores. Ganhamos Copa do Brasil, trouxemos mais dez. Conquistamos o Brasileiro, outros dez. Para quê? É um exagero. Não cabe nem no vestiário. E isso em todos os setores do clube: marketing, porteiros, etc..

Galiotte ouve conselhos seus?
Eu me manifesto apenas nas reuniões do COF. Não interfiro em gestão alguma, nem hoje, na do Maurício, nem no passado, na do Arnaldo Tirone.

Pensa em parar de se envolver em algum momento?
Já parei faz tempo. Sou conselheiro do clube, um entre 300, e membro nato do COF, um entre 19. Não vou renunciar disso. Mas tem o seguinte: eu não me omito. Nunca vai me ouvir dizer que não sabia de algo no Palmeiras.

Com a influência no conselho e a amizade com os donos da Crefisa, o senhor é a figura política mais influente do clube?
Não. Minha relação com a Crefisa foi colocada à disposição do clube para que o Palmeiras não tivesse o encerramento do seu patrocínio. A relação deles com o Palmeiras nem passa por mim.

Pensa em voltar a ser presidente do Palmeiras?
Nunca. Nem tem razão para isso. Coloco minha experiência à disposição dos outros. Palmeiras tem uma geração que pode contribuir muito: o próprio Maurício, a gestão do Paulo [Nobre] foi importante.

Os membros de sua geração de cartolas, como Eurico Miranda e o Leco, ouvem a crítica de que a volta deles ao comando representa um retrocesso ao futebol brasileiro. Como o senhor encara esses comentários?
Analise como estava o futebol antes de eles voltarem. Eles estão voltando, segundo o conceito, certo? Não posso falar por mim, porque não voltei a lugar algum. Mas os demais voltaram porque aqueles que os sucederam fracassaram. Não haveria retorno se as coisas tivessem corrido bem. Queira ou não, essa geração que agora está se extinguindo foi a que trouxe oito títulos mundiais para o Brasil. Por incrível que pareça, os cartolas tão criticados hoje, "repulsivos", que trouxeram a primeira medalha olímpica. A seleção está a um jogo de se classificar para a Copa da Rússia. Isso por conta dos cartolas jurássicos, entre os quais eu me incluo. Quando vieram os CEOs e executivos, deu no que deu: os clubes em dificuldades.

Se você fosse presidente hoje, que medidas tomaria?
Primeiro, saneamento e austeridade. Faria um estudo de todos os desperdícios que certamente existem no clube. Segundo, restaurar o quadro associativo, que perdemos por força de alguma situações de dificuldade e também de falta de entrosamento e muito pela demolição de todas as instalações, que os associados ficaram anos sem lugar para se acomodarem. Fundamentalmente, isso. E o futebol como funcionou durante toda minha gestão, com profissionais. Dizem que o futebol tem que se profissionalizar, mas no Palmeiras sempre foi assim, e com grandes profissionais: Oscar Paulino, Rui Cardim, Américo Faria, entre vários outros. É uma falácia. Só o cara que ganha R$ 300 mil por mês que é profissional?
Sei que o Palmeiras está contratando um cara para estudar o clube e reduzir gastos. Vão aumentar os custos para estudar como diminuir. É só mandar gente embora.