Folha de S.Paulo

Prisão de Nuzman encerra a era dos super-cartolas no esporte


A prisão de Carlos Arthur Nuzman, nesta quinta-feira (5), encerra uma era no esporte brasileiro, a dos supercartolas. Assim, como João Havelange no futebol, Nuzman concentrou mais poder no esporte olímpico nacional do que qualquer outro.

Em 42 anos, liderou a revolução no vôlei, tornando-o o segundo maior esporte do país, e, no COB (Comitê Olímpico do Brasil), tornou a entidade mais rica e estruturada, mas fracassou na promessa de tornar o Brasil uma potência olímpica.

Ainda que continue à frente do COB após sua estada na prisão, seu poder foi abalado de forma definitiva, e seu modelo centralizador, comprometido. E esse modelo só não acabou ainda por sua recusa em deixar no poder.

Se o ícone dos supercartolas foi João Havelange, Nuzman foi seu melhor discípulo. Se Havelange ficou 40 anos entre a presidência da CBF (1958-1975) e Fifa (1975-1998), Nuzman está há 42 entre a presidência da CBV (1975-1995) e do COB (desde 1995).

Nuzman aprendeu com Havelange a multiplicar o volume de dinheiro no esporte, atraindo investidores. E fazer desse dinheiro alavanca para o sucesso esportivo. E a usar as duas coisas como instrumento de poder.

Na área esportiva, a trajetória de Nuzman se divide em duas partes: o sucesso estrondoso no vôlei e a quebra de expectativas no COB.

Na CBV, pegou um país com pouca tradição no vôlei e o organizou para se tornar a principal potência do planeta. Com ele, o Brasil ganhou a prata nos Jogos de Los Angeles-1984 e o ouro em Barcelona-1992. O vôlei feminino, quase inexistente quando assumiu, também teve um grande crescimento, que continuou após sua ida para o COB.

Desde o começo, Nuzman concentrou os esforços nas seleções. Dizia que, com uma seleção vitoriosa, surgem ídolos e eles estimulam a prática do esporte.

Se, para o esporte, as vantagens se mostraram controversas –no vôlei deu muito certo, em outras modalidades não–, para os dirigentes elas têm sido evidentes, pois o dinheiro, logo, o poder, se concentra nas mãos deles.

Além da seleção, Nuzman dotou a CBV de um modelo de gestão de negócios. Foi atrás de patrocinadores, de mídia, pôs o vôlei na TV, fez um jogo no Maracanã contra a maior seleção do mundo na época, a URSS (nem a chuva forte impediu a partida), e pôs o vôlei no Brasil no mapa mundial do esporte. Vieram as medalhas e tudo parecia sorrir.

Mas, quando foi para o COB, em 1995, Nuzman encontrou barreiras. Os presidentes de confederação não aceitaram de imediato seu modelo de gestão e principalmente sua maneira impositiva.

Nuzman corrigiu essa rota com sua habilidade política. Em 2002, o Congresso aprovou lei dando parte do dinheiro das loterias para o esporte olímpico, a Lei Piva. Nessa lei, o COB –ele– concentrava todo o dinheiro e distribuía por critérios que criava, mudava e quase sempre seguia.

Com isso, pensava que poderia atacar outra questão: superar o fracasso dos Jogos Olímpicos de 2000, quando o Brasil voltou sem nenhum ouro em 12 medalhas. Se sua imagem como cartola estava ligada ao sucesso esportivo, Sydney foi um grande arranhão.

Com a Lei Piva, tudo poderia ser diferente. Mas o Brasil continuou a patinar nas Olimpíadas. Com ou sem medalhas, Nuzman passou a pôr cada vez mais energia em seu grande sonho: organizar os Jogos Olímpicos no Rio. Conseguiu em 2009. A roda de poder, prestígio e dinheiro seguia girando.

Mas Nuzman nunca descuidou das brechas. Na Rio-16, pela primeira vez em várias Olimpíadas o presidente do comitê olímpico também foi presidente do Comitê Organizador.

Ao mesmo tempo que comandava o esporte com mão-de-ferro e gerenciava os negócios do COB com o amigo Leonardo Gryner, seu parceiro desde os primeiros tempos na CBV, Nuzman se ocupava em ficar longe de encrencas. Em público, sempre se parecia um cavalheiro confiante, o idealista do Brasil potência olímpica (e antes disso potência do vôlei).

Enquanto Ricardo Teixeira, ex-genro de Havelange com quem tinha uma relação de altos e baixos, sofria com CPIs e denúncias e uma imprensa querendo pegá-lo no pulo, Nuzman conseguiu manter-se fora do noticiário negativo. Mesmo quando surgiram problemas e mais problemas nos Jogos Olímpicos.

Aos poucos, começou a preparar sua saída de cena -se iria voltar atrás, ninguém sabe. Até que os franceses começaram a investigar se ele tinha mesmo conseguido tantos votos para a Rio-16 com aquele famoso point-point de 2009.