Folha de S.Paulo

'Não sou santo, já errei muito e fiz sacanagem em campo', afirma Tite


Na sala de Tite, 57, no segundo andar do prédio da CBF (Confederação Brasileira de Futebol), no Rio, planilhas e relatórios sobre jogadores dividem espaço com símbolos religiosos. Três imagens de santas, um crucifixo, uma imagem do Papa Francisco e uma folha com uma oração do dia estão lá.

O técnico que comandou a melhor campanha de uma seleção nas eliminatórias se diz crente num bom desempenho da equipe na Copa Mundo de 2018 e aponta o Brasil como favorito. Jura também acreditar que seu time não recorrerá à malandragem para vencer.

"Atleta meu que viu algo errado a seu favor, marcação do árbitro, pode falar. Diga mesmo. Como aconteceu com o Rodrigo Caio [zagueiro do São Paulo avisou ao juiz que Jô não tinha feito falta marcada em clássico]. Vai ter aval do técnico", afirma à Folha.

A transparência é a mesma que o levou a assinar um manifesto que defendia a saída de Marco Polo Del Nero da CBF em 2015. Seis meses depois, aceitou convite do cartola indiciado por corrupção nos EUA para assumir a seleção.

"Dei vazão ao meu sonho e tenho autonomia no departamento da seleção para fazer o melhor possível. Isso que abriu a condição de vir para cá. A forma de abrir esse caminho e daqui a pouco ser um exemplo é o que me trouxe aqui", diz, sem responder se há arrependimento por ter defendido a saída do seu atual chefe.

Folha - A seleção é favorita ao título na Copa do Mundo?
Tite - Sim, é uma das favoritas. Não só pela campanha nas eliminatórias para a Copa, mas pelo desempenho. A minha exigência é de desempenho, alta performance. Isso eu controlo e exijo. Mas controlar resultado, não faço. Isso oprime, engessa e é desumano. Eu não tenho controle sobre resultado. Tenho sobre desempenho, posso exigir. Jogar bem para vencer.

Quem são os outros favoritos?
Alemanha, Espanha, França e Bélgica são os melhores.

O que aprendeu em um ano e meio na seleção?
Que é uma dinâmica diferente e uma pressão absurda. É outra realidade. Tem que ser muito preciso no diagnóstico. Não dá para gastar energia em coisas superficiais.

O Brasil costuma viver entre encantar e jogar para vencer com pragmatismo nas Copas. O que priorizar?
É possível jogar bonito e efetivo. Não são características contrárias, não são excludentes. O que preciso é respeitar as características dos atletas. Ela pode ser 1970, pode ser 1982. Tem que respeitar as características dos atletas.

O senhor conversou com os atletas sobre o 7 a 1 ?
Não conversei. Esse impacto foi quando o Dunga assumiu. Quando eu assumi a pressão era outra, era pela classificação do Brasil. Era estar olhando para a tabela e ter um terço da competição rodado e estar na sexta colocação.
Eu vi preocupação e ansiedade. Os jogadores olhavam para mim e eu me sentia pressionado por eles. Como se dissessem: cara, me diz o que nós temos que fazer? No Equador [primeiro jogo], especificamente, eu me sentia assim. Tamanha era a falta de confiança que eles estavam.

Em nenhum momento o assunto 7 a 1 veio à tona?
Eu não presenciei nada. Foi desumana a cobrança nos profissionais em 2014. Talvez por ser no Brasil. Tudo que fosse menos do que jogar bem e ganhar a competição era pouco. Foi tudo exagerado. Antes, de expectativa; depois, de exigência; e depois, de cobrança -ela foi desumana, ela foi pesada. Para mim, ela passou do ponto.

Pretende levar um psicólogo para a Copa de 2018?
Já trabalhei com profissionais em clubes. Na seleção, vejo dificuldade pelo curto espaço de tempo. O psicólogo tem que estar inserido dentro da comissão técnica. Tem que sentir o vestiário quando perde, sentir quando ganha, quando o cara está puto. No momento, eu não vi ainda. Não tenho isso fechado.

É verdade que o senhor falou com todos os ex-técnicos da seleção que estão vivos?
Sim, todos eu procurei. O maior deles é o Zagallo. Fiz umas seis, sete visitas. É um ícone, um visionário. Em 1970, ele enxergava na frente. Fazia marcação por setor. Estar com ele gera tranquilidade.

Falou com o Dunga?
Não, eu pensei que eu não gostaria que houvesse a conversa se eu estivesse no lugar dele. A ferida estava muito aberta ainda, por ter saído. Respeitei isso. Tenho um relacionamento profissional com ele. Não tomei a iniciativa.

E com o Felipão, técnico da última Copa?
Tentei conversar com todos. Com ele [Scolari] não foi possível. Tentei contato por e-mail duas vezes e não obtive resposta, ai vi que não ia ter diálogo e desisti. [entenda motivo da briga entre Scolari e Tite ]

Como é trabalhar com Neymar?
É muito fácil. Eu trato ele de forma igual. Ele tem um coração desse tamanho [abre os braços e as mãos]. É um outro lado que as pessoas não conhecem. É do bem. Ele tem pequenos gestos que mostram solidariedade. Até nesse episódio com o Cavani. Ele marca o gol e aponta para o Cavani. Ele é do bem, bom coração

Mas antes disso teve a briga, ele exigiu bater o pênalti. Na seleção existiria essa discussão dele com outro jogador?
Não vamos comparar. Ele [Neymar] é um dos batedores. Treino com ele, Daniel Alves, Coutinho e Willian.

Tem um batedor oficial?
O 1 é o Neymar.

Quem será o capitão na Copa?
Os mais experientes vão ser, mas vai mudar de jogo a jogo.
Na sequência de amistosos, vou dar oportunidade para cada um que não foi ainda de ser capitão. Quero dividir as responsabilidades. Essa é a nossa cultura. É diferente do europeu. O Terry, por exemplo, ficou não sei quanto tempo na Inglaterra. Na hora que ele levanta, todo mundo levanta. Nós não temos isso. Para mim, isso não funciona. Aqui a responsabilidade é diluída.
Não tem essa história de quando a equipe está mal e toma um gol, você falar: mas o capitão não falou nada. E os outros? O Didi na Copa de 1958 não era o capitão e foi lá, pegou a bola quando o Brasil levou o gol. Não dá para arder no rabo de um só.

Estar com time fechado não pode ser uma armadilha para a Copa? Exemplos como 2006, 2010 e 2014 servem de alerta?
Pode ser [uma armadilha]. Mas qual é o mundo real meu? Eu tenho 15 jogos. Minha amostragem é muito pequena.

Se chegar alguém atropelando como o Neymar em 2010?
Vai para dentro do time. Levo sem testar. E dou exemplo prático. O Gabriel Jesus entrou. E foi titular no primeiro jogo. Tinha 19 anos. Se surgir outro assim, vem pra dentro.

Você acha que um dia o Neymar será o melhor do mundo?
O Neymar leva o prêmio em três anos, no máximo. Hazard, Griezmann e Pogba serão os rivais. Agora, por que três anos? A idade chega para todo mundo e ela tira a competitividade, e isso vai acontecer com o Messi e com o Ronaldo. Aí o Neymar vai chegar.

Treinador na Copa tem muito assédio, o que o senhor pretende fazer além do trabalho com a equipe? Vai fazer comerciais?
Eu recusei mais de 100 palestras empresariais. Vou para uma palestra agora em Nova York. Vai ser nas férias. Tenho situações de fazer publicidade. Não vou fazer bebida, cerveja. Já houve sondagens, mas não vou fazer.

O Brasil vive um período de divisão, de conflito e o Tite acaba sendo uma unanimidade rara num momento desses.
Eu não sou unanimidade, não me considero. Mas vejo que pessoas me olham e me consideram como alguém do bem. Procuro não fazer sacanagem. Já fiz muita sacanagem em campo, já errei muito, é humano. Já pedi para atleta cair, para sair de campo e acabar o jogo. Não sou um poço de correção, não sou santo, mas tenho princípios calcados. Quero ser melhor preservando lealdade.
Atleta meu que viu algo errado a seu favor, marcação do árbitro, pode falar. Diga mesmo! Vai ter aval do técnico. Como aconteceu com o Rodrigo Caio [zagueiro do São Paulo avisou o árbitro que Jô não tinha feito falta no goleiro em clássico contra o Corinthians].

Se tiver gol de mão para o Brasil na Copa?
Se foi de mão, tem o meu aval [para avisar]. Pode falar para o árbitro. Não tem problema se eu for criticado. Me importo com a minha consciência e os meus princípios. Importa o que o seu Agenor e a Dona Ivone me ensinaram.
Se tiver que pagar o preço de vencer fazendo uma coisa errada conscientemente, eu largo, vou fazer outra coisa, vou ficar em paz comigo mesmo. Eu não preciso disso. Eu não sou puritano, não. Sou convicto dos meus conceitos. Quero ser melhor, mais ágil, mais estrategista. É isso que eu quero ser. Eu não quer ser o maior filha da puta. Não me agrada, não me serve.

Corrupção é o maior problema do Brasil?
Sim, é. Isso dói, isso mata.

O senhor apoia a Lava Jato ?
Apoio. E tudo o que o Ministério Público está fazendo. Preciso de transparência. Precisamos saber as coisas como elas acontecem.

Qual o político que mais decepcionou o senhor?
Não posso nominar. Eu posso, eu quero, mas eu não devo. Estou numa atividade que estou focado no meu trabalho. Eu posso dizer que a falta de transparência me deixa mal. Não poder dizer, mostrar em quem vai votar. Isso afronta os meus princípios. Afronta os meus princípios ter um acidente e não poder fazer o bafômetro no motorista porque uma regra diz que não pode criar prova contra si mesmo. Não posso fazer prova contra mim, mas posso matar o outro. Que lógica é essa? Isso me afeta, me indigna.

Morando no Rio, como vê a escalada de violência na cidade?
Chateia muito, me fere como ser humano. Outro dia eu estava andando com a minha esposa. Eu tinha um compromisso do outro lado da cidade. Ela perguntou: tu vai passar onde está dando o tiroteio? Olhou no Google, viu onde era e não deixou. Essa sensação de insegurança é difícil.

Você quer continuar na seleção após a Copa?
Eu procuro não fazer um planejamento a médio e longo prazo. Gostaria de fazer um ciclo inteiro. Gostaria de fazer esse ciclo [quatro anos]. Mas vai depender do trabalho e do resultado.

RAIO - X - TITE
NOME
Adenor Leonardo Bachi
IDADE
57 anos
EQUIPES QUE TREINOU
Guarany-RS, Caxias, Veranópolis, Ypiranga-RS, Juventude, Grêmio, São Caetano, Atlético-MG, Palmeiras, Al Ain (EAU), Internacional, Corinthians e seleção brasileira
PRINCIPAIS TÍTULOS
Copa do Brasil, Campeonato Brasileiro, Copa Sul-Americana, Libertadores e Mundial de Clubes