Folha de S.Paulo

Pop nas redes sociais, vovô-pintor Chan Jae Lee ganha mostra em SP


Fenômeno do Instagram com mais de 300 mil seguidores, vovô Chan nem de longe pensava em estabelecer contato com o mundo cibernético. "Meu pai não tem nenhuma afinidade com tecnologia, nunca usou nem e-mail", conta seu filho Ji Lee.

Mas conectou-se, e, agora, além de inspirar mais de 300 mil seguidores na conta "Drawings for My Grandchildren", será tema da breve exposição "Desenhos para os Meus Netos", que vai desta terça (10), até sábado (14) em São Paulo.

A história está intimamente ligada aos laços familiares e começa há mais de 35 anos, em 1981, quando Chan e sua mulher, Kyong Jah Ahn, migraram para o Brasil.

A Coreia do Sul passava por dificuldades econômicas e eles queriam uma vida melhor para seus filhos. Chan largou a carreira de professor de geologia e abriu um comércio de roupas em São Paulo.

"Ele ficou muito ocupado com o trabalho e deixou o desenho", diz Ji, que se lembra de, pequeno, ver o pai desenhar para ele e a irmã, Miru.

Há quatro anos, Chan se aposentou e passou a se dedicar a cuidar dos netos, Arthur, 13, e Allan, 12, que ele levava para a escola.

Mas a família da filha voltou para a Coreia, para onde o marido de Miru foi transferido. Sem os netos, a rotina do avô se limitou à televisão.

Chan também sofreu com uma doença que causa lesões na pele e dores. Preocupados com o ânimo dele, Ji, a irmã e a mãe passaram, então, a incentivá-lo a desenhar e divulgar as obras na rede.

O patriarca, contudo, não gostou da ideia. "Ele não entendia o porquê de compartilhar nas redes sociais, ficou muito resistente", lembra Ji.

A família já quase desistia quando nasceu Astro, filho de Ji e terceiro neto de Chan.

Os avós foram visitar o novo membro da família em Nova York, onde Ji mora e trabalha como designer. Certa noite, ele conta que seu pai ficou pensativo e disse: "O que será que Astro vai ser quando crescer?". Então aos 75 anos, Chan calculava que provavelmente não estaria aqui para ver o crescimento do neto.

Comovido, Ji sugeriu ao pai que desenhasse para os netos.

"Pela primeira vez, ele viu um propósito. Não era mais só desenhar, havia um objetivo", conta o designer.

O nascimento de Astro acabou sendo um divisor de águas para Chan, que começou a usar o Instagram. "Demorou, mas ele ficou mais disposto e aprendeu como postar fotos e usar filtros e hashtags", lembra Ji.

Post

A curadoria da conta "Drawings for My Grandchildren" é dividida entre a família. Chan desenha, Kyong escreve textos sobre as obras, e as traduções são feitas por Miru (português) e Ji (inglês).

"Às vezes me param na rua para cumprimentar. Eu fico feliz, mas para mim não mudou muito", conta Chan. Apesar da fama, o vovô é rigoroso com sua arte: "Fico feliz quando o desenho fica bom e inquieto quando não fica".

Agora, Chan e Kyong vão voltar para a Coreia do Sul, o que faz da mostra de 40 de seus desenhos uma espécie de despedida. As obras serão expostas na Oficina Cultural Oswald de Andrade, no Bom Retiro, bairro que os acolheu.

Chan recorda que uma das coisas que mais o impressionaram quando se mudou para o Brasil foi como os brasileiros amam as crianças. "Na Coreia é sempre 'os idosos primeiro', mas aqui é 'as crianças primeiro!", diz.

Ele completa: "Em 12 de outubro é comemorado o Dias das Crianças, mas no Brasil é como se os 365 dias do ano fossem dedicados a elas".

Chan diz que não pretende interromper o trabalho. "Quero que meus netos acreditem que o avô é dedicado aos desenhos que faz por eles."

DESENHOS PARA OS MEUS NETOS
QUANDO de ter. a sex., das 9h às 21h; sáb. das 10h às 18h; até 14/10; grátis
ONDE Oficina Cultural Oswald de Andrade - r. Três Rios, 363, (11) 3222-2662