Folha de S.Paulo

A vertiginosa queda de Kevin Spacey, de grande estrela de Hollywood a 'assediador sexual'


Em menos de 72 horas, o ator Kevin Spacey passou de um dos atores mais respeitados do mundo do cinema, teatro e televisão a pivô de acusações de assédio sexual, com a carreira em frangalhos e pedindo um tempo para se tratar.

Após a primeira acusação, divulgada no domingo, de que teria abordado de forma indevida um ator adolescente há mais de 30 anos, ele revelou ser gay —e foi duramente criticado por ativistas LGBT, por ter, supostamente, usado sua sexualidade como "cortina de fumaça" para tirar a atenção das alegações de assédio.

A exemplo do que aconteceu com o produtor de cinema Harvey Weinstein, seguiram-se novas acusações contra o ator, que ganhou dois Oscars - e é bastante conhecido pelo papel de Frank Underwood na série House of Cards.

"Kevin Spacey vai tirar o tempo necessário para buscar diagnóstico e tratamento", informou um representante do ator à revista Variety.

Abaixo, a BBC revisita a trajetória do aclamado ator e elenca as alegações contra ele.

No domingo, o site Buzzfeed divulgou as declarações do ator Anthony Rapp, que afirmou ter sido assediado por Spacey em 1986 quando tinha 14 anos. Na ocasião, Spacey tinha 26 anos.

Desde a revelação dos detalhes de como foi abordado por Spacey ("ele me carregou no colo como um noivo carrega a noiva...então, se deitou em cima de mim"), houve uma rápida sucessão de eventos. No mesmo dia, Spacey pediu desculpas e assumiu ser homossexual.

Em seguida, vieram as críticas de grupos LGBT - e novas denúncias de assédio, como as do ator mexicano Roberto Cavazos e do cineasta Tony Montana.

Na terça-feira, o provedor global de filmes Netflix anunciou que suspendera as filmagens da sexta temporada de House of Cards.

E na quarta, Spacey, hoje com 58 anos, anunciou que estava saindo de cena para se tratar.

As alegações continuam. Segunda a rede TV norte-americana CNN, vários integrantes homens da equipe de House of Cards reclamaram do ambiente "tóxico" no set por causa do comportamento de Spacey, marcado por assédio e outros abusos.

"Segundo minha mãe, eu queria ser ator desde os sete anos", disse Spacey este ano em Los Angeles. O ator era o caçula entre três irmãos. A mãe era secretária e morreu em 2003. Sobre o pai do ator, contudo, não se sabe muito. Ele morreu em 1992 e trabalhava como redator.

Spacey não fala do pai nem usa o sobrenome dele. Recentemente, o jornal britânico Daily Mail publicou um depoimento do irmão mais velho do ator dizendo que o pai foi membro do Partido Nazista dos EUA e abusava da família.

Spacey, que nasceu em Nova Jersey, considerava o também ator Jack Lemmon como "pai adotivo". Foi Lemmon que o introduziu ao mundo das artes cênicas.

Apesar de ter estudado na renomada escola de artes Julliard, em Nova York, Spacey demorou a conquistar fama.

Em 1986, quando ocorreu o episódio narrado por Rapp, Spacey atuava na Broadway, em Nova York, na peça Longa Viagem Noite Adentro, do dramaturgo americano Eugene O'Neill.

O reconhecimento no cinema veio em 1995, com o filme Os Suspeitos, dirigido por Bryan Singer. O papel rendeu a Spacey um Oscar de melhor ator coadjuvante.

A partir daí, o prestígio que já tinha conquistado nos palcos se estendeu a Hollywood. Spacey se firmou na carreira como ator sério, versátil e confiável.

Em 2000, Spacey ganhou mais um Oscar, dessa vez como protagonista, pelo papel no filme Beleza Americana.

Além do mais importante prêmio do cinema mundial, o ator ganhou um Globo de Ouro e um Tony. Foi indicado 11 vezes ao Emmy, a maioria das nomeações pelo papel de Frank Underwood em House of Cards.

Ele também dirigiu filmes - Ciladas da Sorte (Albino Alligator, 1996) e Uma Vida Sem Limites (Beyond the Sea, 2004) - e foi diretor artístico do tradicional teatro Old Vic, em Londres, por mais de dez anos.

Quem conhece bem o ator, diz que Spacey gosta de uma boa conversa e imita atores clássicos como Jack Lemmon ou James Stewart com grande talento. No entanto, não gosta de falar de sua vida íntima.

Ele convivia com rumores e insinuações sobre sua sexualidade desde que alcançou a fama, nos anos 1990.

Em 1997, foi capa da revista Esquire, que teve o título "Kevin Spacey tem um segredo". Dois anos depois, na tentativa de dissipar rumores, disse à revista Playboy que aquela reportagem o ajudou a conquistar mulheres que "queriam transformá-lo".

Em 2000, já com o Oscar para Melhor Ator debaixo do braço, disse à apresentadora do programa de televisão americano 60 Minutes que tinha um relacionamento com uma mulher chamada Dianne Dreyer.

Ainda assim, as especulações sobre a vida sexual do ator não pararam. E começaram a aparecer críticas da comunidade homossexual, que o acusava de covardia.

Assim como aconteceu com o produtor Harvey Weinstein, acusado de assediar sexualmente atrizes, modelos e funcionárias, as abordagens inapropriadas de Spacey a homens mais jovens não eram exatamente um segredo na indústria cinematográfica.

"Parecia que o Sr. Spacey se sentia livre para tocar qualquer homem desde que ele tivesse menos de 30 anos", escreveu, no Facebook e no Twitter, o ator Roberto Cavazos, relatando que uma de suas supostas estratégias era convidar atores mais jovens para falar sobre a carreira e oferecer um piquenique com champanhe sobre o palco do Old Vic, "maravilhosamente iluminado".

"Cada história variava do quão longe ele ia nesse piquenique, mas a técnica era sempre a mesma", escreveu Cavazos no Facebook.

A decisão do Netflix de suspender a produção de House of Cards, série que também é produzida por Spacey, coloca em suspense os próximos trabalhos do artista.

Em dezembro, está prevista a estreia do filme All the Money in the World, dirigido por Ridley Scott, no qual Spacey interpreta o milionário J. Paul Getty. Não se sabe se a produtora do filme alterará os planos de divulgação para o longa disputar o Oscar em 2018.

O futuro da relação com o Netflix é incerto. Além de House of Cards, Spacey negociava com o provedor e plataforma de streaming um filme biográfico sobre o escritor americano Gore Vidal.

O ator foi uma das primeiras estrelas de Hollywood a apostar no potencial da plataforma de streaming. Pelo papel do maquiavélico Frank Underwood, Spacey se tornou um dos rostos mais conhecidas e principais promotores do Netflix.

Depois dele, outras estrelas se animaram a investir em projetos exclusivos para a internet.

A posição do Netflix não é fácil. Já se previa que House of Cards estava com os dias contados desde a saída de seu criador original, Beau Willemont.

A empresa já estava tendo de lidar com o "pepino" de sua relação próxima com Harvey Weinstein - e um outro escândalo certamente não ajuda.