Folha de S.Paulo

Estrangeiros que vieram ao Brasil no auge viram trabalho minguar


A prolongada crise econômica, que tem levado um número crescente de brasileiros qualificados a se mudar para o exterior, também teve impacto sobre a vinda de profissionais estrangeiros ao país.

Os vistos emitidos pelo governo brasileiro para trabalhadores de fora, que aumentaram a um ritmo acelerado nos anos de crescimento, caíram quase 30% no primeiro trimestre deste ano em relação ao mesmo período de 2014.

No caso de profissionais muito qualificados, com diplomas de mestrado e doutorado, o recuo foi ainda maior, perto de 45%.

Segundo Aldo Cândido, coordenador-geral de Imigração do Ministério do Trabalho, a concessão de vistos a estrangeiros obedece à demanda. Com a retração da economia global e o fim de um ciclo de investimentos no Brasil, entrou em declínio.

Vistos de trabalho para estrangeiros no Brasil -

"Vários projetos já foram concretizados ou estão em fase final de conclusão, como nas indústrias automobilística e siderúrgica, não mais necessitando de estrangeiros."

Além da menor entrada, muitos dos que desembarcaram aqui nos últimos anos buscam o caminho de volta.

O economista português João Mergulhão, que havia vindo para o Brasil em 2011, mudou-se com a família para Londres em junho, atraído por uma proposta de trabalho. "Com a crise na Europa e nos EUA, muitos especialistas se mudaram para o Brasil. As perspectivas pareciam boas e, com o real valorizado, os salários eram competitivos."

A derrocada do Brasil e a forte desvalorização cambial alteraram o cenário.

Em 2012, o economista português Vasco Severo, 35, foi transferido para o Brasil pela consultoria para a qual trabalhava. "Não havia projetos na Europa, só na América Latina. Trabalhávamos de lá em projetos no Brasil."

No ano passado, a mão se inverteu e ele passou a trabalhar, de São Paulo, em projetos na Europa. O salário em reais deixou de valer a pena, e ele decidiu buscar outro emprego em Lisboa. "Quando me casei no Brasil, em 201

havia 40 portugueses na festa. Apenas quatro ainda estão no Brasil."

Na sua opinião, isso terá impacto no futuro. "Quando um país não está bem, fica mais pobre também em recursos humanos", diz. "A economia não soube segurar muitas pessoas empreendedoras, que ajudariam a gerar mais crescimento no futuro."

Na lista de talentos que se desencantaram com a virada do Brasil não estão apenas estrangeiros. Com o título de doutor pelo prestigiado MIT, o economista Dejanir Silva, 32, chegou a estudar propostas de trabalho em universidades brasileiras, mas acabou optando pela Universidade de Illinois em Urbana-Champaign (EUA).

Pesou, além de salário e qualidade de vida, a numerosa comunidade acadêmica, que tende a incentivar pesquisas. "Os departamentos de economia no Brasil estavam em trajetória ascendente. Mas, com a crise, é difícil imaginar que essa expansão continue, o que reduz a atratividade de retornar ao Brasil agora", diz.