Folha de S.Paulo

Israel transforma deserto em nova fronteira contra ataques hacker


"Com um clique em um botão, você pode colocar nações de joelho. Todo sistema pode ser hackeado". Esse é um dos alertas sobre cybersegurança que o primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, fez durante a Cybertech 2017, feira que reuniu especialistas sobre o tema nesta semana em Tel Aviv.

Para Netanyahu, a guerra mudou dramaticamente e, por isso, o governo do país fornece incentivos (como descontos em impostos) para que grandes empresas invistam no segmento e start-ups e jovens talentos se desenvolvam.

As declarações se destacam pouco antes do encontro com o novo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em que discutirão o tema. "É possível parcerias entre governos para a cybersegurança", afirma o primeiro-ministro.

Atualmente, Israel conta com cerca 500 start-ups de cyber —ao todo são cerca de 6.000, segundo o governo— e centros reconhecidos como o de Beer Sheeva, localizado no deserto de Negev, mais ao sul do país, a cerca de 100 km da capital. "Lá havia apenas camelos e palmeiras", brinca o presidente-executivo do parque tecnológico, Roni Zehavi.

Jovens talentos ocupam os laboratórios do Cyber Spark, com centros de empresas como IBM, Cisco, ECM e Oracle, para pensar e desenvolver soluções tecnológicas para combater ameaças on-line.

O ecossistema, segundo as autoridades do país, é ideal: reúne multinacionais, start-ups, universidade e forças do Exército.

"Cybertecnologia é a medicina dos tempos modernos. O 'malware' é como se fosse um vírus ou uma bactéria", compara Zehavi.

O crescente cenário de novas empresas gerou investimentos de US$ 4,8 bilhões em 2016 —contra US$ 4,4 bilhões em 2015, de acordo com a Israel Innovation Authority, órgão ligado ao Ministério da Economia.

O serviço militar obrigatório —para homens e mulheres— em Israel já serve como um processo para desenvolver engenheiros, matemáticos e especialistas em TI para que possam se tornar especialistas em segurança.

"Preparamos nossos jovens no Exército. A cultura nacional já é pensar fora da caixa", diz Netanyahu.

"Somos guerreiros por natureza. Agora temos de sentar atrás de computadores para sermos bons engenheiros e matemáticos", diz um general das Forças Armadas.

A invasão ao sistema de um hotel na Áustria, há duas semanas, trouxe à tona novamente a questão da cybersegurança.

Hackers penetraram na rede do hotel e fizeram com que hóspedes não pudessem entrar nem sair de seus quartos com as chaves magnéticas. Para liberar as operações, os invasores pediram cerca de US$ 1.800.

O episódio foi ressaltado por diversos especialistas, que destacam como grandes desafios para os próximos anos a Internet das Coisas (IOT, na sigla em inglês), armazenamento na nuvem (cloud), mobilidade e automação crescente (por exemplo, de veículos e indústria).

De acordo com o presidente-executivo da Check Point, Gil Shwed, entre as principais explicações de donos de empresas para não adotar métodos mais eficientes de segurança estão: "é complicado demais", "não tenho pessoas treinadas" e "não imaginava que aconteceria comigo".

Segundo ele, a maioria das pessoas também não se preocupam com a segurança em seu celular e isso se reflete nas companhias. "Cerca de 20% dos ataques a sistemas de empresas ocorre por meio desses aparelhos", afirma.

Para o presidente da Cisco, Chuck Robbins, é preciso manter uma arquitetura para que todas as empresas consigam ter acesso.

Estimativas da Cisco indicam que o mercado de cybersegurança movimentará US$ 100 bilhões em 2019 e 500 bilhões de aparelhos estarão conectados nos próximos 10 anos.

O jornalista viajou a convite do Ministério das Relações Exteriores de Israel