Folha de S.Paulo

Megarricos buscam refúgio na Nova Zelândia contra colapso capitalista


As vistas são deslumbrantes: cervos selvagens circulam pela área e uma floresta oferece lenha suficiente para aquecer qualquer bilionário que se respeite mesmo no pior inverno nuclear.

A Lake Hawea Station, uma propriedade de 4.605 hectares na região de Central Otago, é uma das propriedades autossuficientes que vêm surgindo em número crescente na Nova Zelândia.

Elas são normalmente vendidas a compradores internacionais e, de acordo com alguns comentaristas, se tornaram a nova mania entre os megarricos do planeta que estejam em busca de proteção contra o futuro colapso do sistema capitalista.

"Cerca de 40% de nossos clientes são norte-americanos -eles querem privacidade, segurança e uma bela paisagem rural", disse o corretor Matt Finnigan. "Imóveis sustentáveis em geral oferecem fontes próprias de água e energia e a capacidade de cultivar alimentos", ele diz.

A chegada de imigrantes ricos ao país ganhou destaque na semana passada com a notícia de que Peter Thiel, cofundador do PayPal, estava entre os 92 candidatos a quem foi secretamente concedida a nacionalidade neozelandesa, contornando os trâmites regulares.

Pouco antes, um artigo publicado pela revista "New Yorker" identificou a Nova Zelândia como destino preferencial para os ricos que querem sobreviver caso a crescente desigualdade venha a provocar uma revolta popular.

"Dizer que você está comprando uma casa na Nova Zelândia é uma daquelas coisas subentendidas", disse à revista Reid Hoffman, cofundador do LinkedIn.

Além de Thiel, a lista de americanos ricos que têm imóveis na Nova Zelândia inclui o cineasta James Cameron, o guru dos fundos de hedge Julian Robertson. Diversos russos ricos também têm imóveis no país.

O país de 4,3 milhões de habitantes está desfrutando de um boom de imigração e investimento estrangeiro. O governo do país aprovou a aquisição de 466 mil hectares de terras por estrangeiros em 2016, quase 60% mais do que no ano anterior. A entrada líquida de imigrantes também atingiu o recorde de 70,6 mil pessoas no ano passado.

Há sinais de que o interesse dos norte-americanos pela Nova Zelândia continua alto. Na semana posterior à vitória de Donald Trump, o serviço de imigração da Nova Zelândia reportou que 13 mil cidadãos dos EUA haviam expressado interesse em trabalhar ou estudar no país -cerca de 17 vezes mais pedidos que em uma semana típica.

Mas muitos neozelandeses rejeitam a ideia de que os ricos estejam acorrendo ao país para se proteger contra desastres em seus países.

"Com voos diretos, a proximidade do país com relação à costa oeste dos Estados Unidos o torna atraente para os norte-americanos", diz Justin Murray, fundador do Murray & Co., um banco de investimento neozelandês.