Folha de S.Paulo

Análise do genoma ganha espaço na biotecnologia


Nas pequenas empresas da área de biotecnologia, o sequenciamento genético é uma das principais novidades que pode mudar o mercado nos próximos anos e ganhar escala industrial.

A ideia é que seja possível, por exemplo, identificar alterações que causam ou agravam sintomas de distúrbios neurológicos como o autismo, ou que tornem mosquitos da dengue resistentes aos remédios usados pelos agentes de saúde.

A Scheme Lab, dos biólogos John Katz, 49, e Alessandra Bizeray, 44, desenvolve testes genéticos que podem ser feitos em qualquer lugar e usados em todos os seres vivos: de animais a plantas e insetos, como o Aedes aegypti.

A empresa está hospedada no Cietec, incubadora de start-ups na USP (Universidade de São Paulo).

"Queremos fazer essa análise genética no local, por exemplo, na hora de aplicar remédios antimosquito. Será possível enviar as informações do local e ter resultados rápidos", diz Bizeray.

Com fomento de R$ 2,3 milhões de instituições como Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) e Finep (Financiadora de Estudos e Projetos), o teste estará pronto para ser comercializado em grande escala em cerca de um ano.

Para Júlio Cesar Ferreira, pós-doutor pela Universidade de Stanford, nos EUA, e coordenador de projetos de inovação e biotecnologia na USP, o desafio é aplicar em larga escala conhecimentos desenvolvidos nas universidades.

"Os valores investidos são altos, por isso o ideal é que o setor público traga um primeiro aporte e o privado entre nos projetos com valores robustos, para produtos com grande potencial", afirma.

No Brasil, também é difícil encontrar investidores dispostos a colocar dinheiro em um projeto sem garantia de sucesso.

"Trata-se de um aporte de capital com possibilidade de retorno só daqui a alguns anos", afirma o biólogo Eduardo Emrich, diretor da Biominas, instituição de fomento ao setor de biotecnologia que incentiva pequenas empresas da área.

Para a Tismoo, start-up que oferece sequenciamento genético para identificar e entender o autismo e problemas neurogenéticos, a solução foi usar R$ 2 milhões de investimento próprio, dos sócios, além de um aporte de R$ 1 milhão de um investidor.

Há serviços como o mapeamento integral do genoma, que custa cerca de R$ 30 mil, e versões mais baratas, que mapeiam apenas alguns genes ou aqueles que estejam relacionados com o autismo.

Também são usadas células da pele ou de gordura, que passam por um processo de reversão para se tornarem "tronco". Em seguida, são transformadas em neurais, ou "minicérebros", para ver o que causa o problema.

"A empresa surgiu por iniciativa de pais de crianças com autismo e cientistas dessa área.

Vemos potencial para que os serviços sejam empregados em grande escala", diz Graciela Pignatari, 39, doutora em biologia molecular e sócia da Tismoo junto a especialistas como o neurocientista brasileiro Alysson Muotri, da Universidade da Califórnia, em San Diego (EUA).

A Tismoo planeja buscar formas de patentear sua nova tecnologia.

O número de patentes é uma forma de avaliar a evolução do setor no Brasil, ainda pequena na comparação com outros países, diz o coordenador-adjunto da Fapesp Hernan Chaimovitch.

"Também precisamos de avanços na legislação que criem uma ponte entre empresa e universidade. Um país que quer se desenvolver precisa investir em novos conhecimentos."