Folha de S.Paulo

Plataforma liga profissionais negros a cargos de liderança


Apenas 5% dos conselhos administrativos das 500 maiores empresas brasileiras têm negros na sua composição, segundo pesquisa do Banco Interamericano de Desenvolvimento e do Instituto Ethos, publicada em 2016.

Visando mudar esse cenário, a start-up Protagonizo se lançou, em junho deste ano, como a primeira plataforma que conecta profissionais negros a cargos de gestão.

A iniciativa é da ex-consulesa da França Alexandra Loras, 40, e do administrador Anderson Carvalho, 34.

Desde que chegou ao Brasil, em 2012, Loras atua como palestrante e ativista em prol da diversidade racial e de gênero. No contato com empresários, notou a demanda por um serviço que os apresentasse a profissionais negros.

Companhias com maior diversidade racial tendem a lucrar 35% mais, de acordo com um estudo da consultoria McKinsey, realizado em 2015 com 366 empresas dos Estados Unidos, do Canadá, do Reino Unido e de países da América Latina.

"Os departamentos de RH insistem que profissionais negros qualificados são raros. Na verdade, eles só não estão no círculo de indicações de pessoas em cargos altos", afirma a ex-consulesa.

Mesmo com curso na Parsons School of Design, em Nova York, e especialização em marketing digital, a profissional Paola Deodoro, 40, diz ter sido ignorada em processos seletivos. Por meio do site, há um mês, conquistou uma colocação na área de comunicação digital da farmacêutica Bayer.

Para o administrador Camões Dias, 26, a plataforma Protagonizo significou um novo rumo na carreira.

Dono de uma grife de roupas, procurava um emprego estável. Depois de cadastrado, foi chamado para entrevistas em três empresas. No final de agosto, começou a trabalhar no departamento de recursos humanos da Cargill, multinacional de processamento de alimentos.

A Protagonizo recebe as vagas disponíveis e as repassa somente para candidatos com a qualificação e o perfil procurados. Há mais de 2.000 currículos inscritos, e ao menos 400 já passaram por um processo seletivo.

Composta por dez pessoas, a equipe da start-up acompanha todas as etapas de perto. Avalia os currículos, sugere alterações na formulação e dá dicas para as entrevistas.

A dupla de sócios investiu R$ 20 mil para bancar os primeiros meses de operação do site. Ainda em fase de testes, o serviço será cobrado das empresas parceiras –hoje somam 70, na sua maioria multinacionais.

Segundo Daniel Teixeira, diretor do Ceert (Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades), iniciativas como a Protagonizo estendem a vitalidade das empresas. "Jovens querem ser representados e trabalhar em lugares que os considerem."