Folha de S.Paulo

Resgate da cultura têxtil e valorização do artesanal marcam a próxima SPFW


Filha pródiga da indústria de transformação, a moda é tanto a cereja quanto a massa do bolo da economia criativa. A ponta desse modelo gerador de emprego e de valor agregado ganhará vitrine a partir do domingo (27), quando tem início a São Paulo Fashion Week.

Nos desfiles, base e topo da cadeia têxtil mostram um resultado que virou referência mundial ao juntar tramas nacionais em um invólucro de luxo criado por marcas e estilistas sob o guarda-chuva do evento.

Nesta edição, as passarelas estarão repletas dos valores que norteiam a economia criativa: no caso da moda, esses valores envolvem a colaboração entre empresas, o resgate da identidade nacional e a valorização da mão de obra artesanal.

Em parceria com a Microsoft, a Luminosidade, organizadora da SPFW, abrigará no prédio da Bienal do Ibirapuera, onde ocorre a maioria dos desfiles, uma tecnologia de realidade aumentada que, segundo a diretora de novos negócios da empresa, Graça Cabral, "tira as pessoas da zona de conforto".

Essa também é a lógica de uma ação da marca de cosméticos Natura, que, atenta à redução do impacto ambiental, promoverá encontros diários com voluntários para criar uma coleção de roupas no encerramento da semana.

Uma plataforma de palestras e desfiles voltados à inovação será desvinculada do calendário oficial. Focado em sustentabilidade, o projeto Estufa, com apoio do Instituto C&A, ganhará edições próprias a partir de novembro.

"Dos setores da economia criativa, a moda é a que mais envolve processos compartilhados, gerando riqueza com trabalho integrado. Na moda nacional, infelizmente, ainda há a noção de cada um por si, uma visão individualista que está ficando para trás. Na SPFW, tentamos mostrar novas formas de fazer moda e gerar valor", diz Cabral.

Muitas das marcas do calendário já têm como premissa a criação colaborativa e a recuperação de saberes têxteis ameaçados. Etiquetas como À La Garçonne, de Alexandre Herchcovitch e Fábio Souza, e Cotton Project, de Rafael Varandas, irão apresentar na passarela parcerias com marcas especializadas em vários segmentos da indústria de vestuário. Os destaques são a malharia Hering, a esportiva Puma, a de jeans Vicunha Têxtil e Camisaria Colombo.

Pioneiro na adequação da identidade brasileira à moda, Ronaldo Fraga também abriu seu processo criativo a outras marcas. Sua coleção terá sapatos e óculos de grifes abrigadas no Grande Hotel Ronaldo Fraga, loja-galeria-café-cinema que ele abriu em Belo Horizonte (MG), e peças de banho desenvolvidas com uma confecção de Brusque (SC). Pela primeira vez, toda a coleção do estilista será focada em moda praia.

"O papel do designer de moda é criar pontes, unir o Brasil feito à mão com a produção em série, artesanato com industrializado", diz Fraga, vencedor de prêmios por seu trabalho com comunidades de artesãos pelo Brasil.

"Criatividade não gera apenas emprego e renda, mas dá autoestima a um povo."

Como fará João Pimenta na SPFW. O designer de moda masculina levará uma tríade de matérias-primas que contam parte da cultura brasileira. O algodão colorido cultivado por agricultores da Paraíba foi fornecido a partir de parceria com a empresária Francisca Vieira, da Natural Cotton Color. O fio serviu de base para tramas de tricôs feitos em teares manuais, no ateliê de Juliana Gevaerd.

"Nossa parceria tem a ver com a valorização da cultura têxtil, cujo modelo de negócios o mercado deve deixar de encarar como caro demais para ser produzido em larga escala", explica a estilista.

É esse olhar que a estilista Helô Rocha espera traduzir na coleção de sua marca homônima. Seu desfile divulgará o trabalho de bordadeiras de Seridó, no interior do Rio Grande do Norte.

"Vejo um desânimo das artesãs com a invasão das máquinas industriais, que reproduzem, mesmo de forma mambembe, o trabalho artesanal. Cabe a nós, designers, solidificar uma cultura de valorização dessas pessoas, que no fim identificam nossa moda", afirma Rocha.