Folha de S.Paulo

Estrangeiros investem em pratos desconhecidos no país


Famosos em seus países, quitutes como o venezuelano tequenho e o varenique, de origem eslava, viraram bons negócios em São Paulo.

A venezuelana Paola Ramirez, no Brasil desde 2011, escolheu a capital paulista para vender seus quitutes, que também incluem as arepas -de origem disputada entre Colômbia e Venezuela.

Depois de criar novos recheios, além do tradicional queijo, e aportuguesar o nome, trocando o "ñ" por "nh", Paola fundou a Bom Tequenho.

No início, a empresária levou os salgados a bares, restaurantes e bufês infantis. "Entregava-os congelados e ensinava como fritá-los", conta Paola. Desde 2013, são produzidos em fábrica própria, no Tatuapé (zona leste).

A empreendedora viu que seria necessário tornar seu produto mais conhecido, e resolveu investir R$ 120 mil na montagem de um food truck.

"Seria difícil oferecer um produto tão novo em loja fixa. Circulando, atinjo diferentes públicos, e percebi que a aceitação na zona norte é menor do que em Pinheiros e no Morumbi", conta Paola.

A tática ajuda a criar chances para que o cliente experimente o produto inusitado, aponta a consultora do Sebrae Juliana Berbert.

Além dos tequenhos, a empresa produz arepas (salgados de farinha de milho recheados com carne e queijo) e cachapas (panquecas).

Paola planeja voos mais altos. "Criei uma embalagem para vender os produtos em supermercados. Estamos concluindo as negociações."

As arepas também viraram negócio, em 2014, para o cozinheiro Jair Rojas, da Macondo Raízes Colombianas.

A empresa começou como uma barraca itinerante e já tem dois trailers, além de atender a eventos.

Há também produtos como sucos de lulo ou de tomate de árbol, duas frutas típicas colombianas. Nos eventos, o valor varia conforme o pacote.

Precificar o produto é um dos grandes desafios desses empreendedores, segundo Berbert. Deve-se levar em conta custos e despesas fixos e variáveis, como a matéria-prima e a mão de obra, além dos impostos.

Quando desembarcaram em São Paulo, em 1948, as irmãs Elisabeta e Elena Vereiski trouxeram na bagagem as receitas típicas da Rússia.

Adultas, passaram a fazer massas típicas para vender. Mas foi só em 2012, pelas mãos da segunda geração, que a produção virou negócio: Olga e Ludmila Vereiski, filhas de Elisabeta, fundaram a rotisseria Nostrôvia.

São duas variedades: vareniques, com recheio de batata ou shimeji, e pelmenis, de carne. Todos são fechados à mão e congelados um por um.

Nastassja, filha de Olga, incrementou o marketing com logotipo e site. Agora, o clã planeja expansão. "Vamos vender para restaurantes, por isso investiremos em uma cozinha profissional", diz Olga.

Para emplacar um produto que ainda não ganhou o paladar do brasileiro, não há como ignorar o poder de um bom plano de divulgação.

Vale abusar das redes sociais, com fotos e vídeos mostrando como é preparado o quitute e quando ele é consumido no país de origem.

Como envolve questões de segurança alimentar, não há espaço para improviso. É vital conhecer a legislação da cidade antes de abrir as portas. "As regras são as mesmas para um carrinho de brigadeiros e para quem vende 1.000 refeições", avisa Berbert.

No caso das microempresas, se um cliente passar mal por contaminação, o proprietário responde civil e criminalmente. Por isso, conhecer bem a procedência dos ingredientes também conta.