Folha de S.Paulo

Pesquisa oceanográfica esbarra em falta de verba


O calendário de atividades do navio Alpha Crucis indica um final de 2017 agitado.

Desde que voltou ao mar, há um ano, depois de passar quase o mesmo período em manutenção, o principal navio de pesquisa oceanográfica do país já navegou por áreas até então pouco conhecidas dos cientistas brasileiros.

"Iniciamos uma nova fase de exploração, a de águas profundas do Atlântico Sul. Com esse navio, é possível fazer estudos de mar aberto, sobre a biodiversidade de peixes abissais e taludes [estruturas que garantem a estabilidade dos aterros], por exemplo", explica Frederico Brandini, diretor do Instituto Oceanográfico da USP (Universidade de São Paulo), que opera o Alpha Crucis.

Adquirida em 2012 pela Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), a embarcação, que tem 64 metros de comprimento e 11 de largura e pode ficar ancorada em alto mar, substituiu o navio Prof. W. Besnard, danificado por um incêndio em 2008.

O Alpha Crucis também tem pode viajar por períodos mais longos: 70 dias, contra apenas 15 do antecessor.

O destino do antigo navio, no entanto, ainda é incerto.

Para os cientistas, o Alpha Crucis representa um avanço tecnológico relevante para a pesquisa brasileira e pode ajudar a desvendar pontos estratégicos para o país.

Um desses locais é a foz do rio Amazonas. "É um lugar muito visado pelo mundo inteiro por sua importância, além de ser uma área que ainda demanda muitos estudos", afirma Brandini.

Segundo o pesquisador, o interesse de especialistas de diferentes áreas em usar o navio para investigar a região é "surpreendente".

Em tempos de cortes severos nos orçamentos voltados à pesquisa científica, manter a embarcação em operação se tornou um desafio.

"É preciso criatividade, paciência e tolerância. A dificuldade financeira é geral", afirma o diretor.

No Estado de São Paulo, a situação é considerada um pouco menos crítica sobretudo por causa da atuação da Fapesp, que dispõe de um orçamento anual que corresponde a 1% do total da receita tributária paulista.

"Não é uma situação simples. Quando a arrecadação estadual cai, a universidade também recebe uma verba menor. E os nossos custos fixos só aumentam", afirma Brandini, do Instituto Oceanográfico.