Folha de S.Paulo

'Consumidores são os indutores de responsabilidade social das empresas'


O consumidor precisa ter percepção do poder que tem nas mãos. E usar esse poder na busca dos melhores impactos possíveis no planeta. Essa é a premissa central em torno do qual se estrutura há 16 anos o Instituto Akatu, dedicado à pesquisa, ensino e difusão de práticas sustentáveis.

À frente da ONG desde seu início está Helio Mattar, que atuou como executivo em empresas nacionais e multinacionais durante 22 anos. Um dos fundadores do Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social, o diretor-presidente do Akatu é membro de comitês de sustentabilidade de empresas como Pão de Açúcar, Unilever e Dow Chemical.

A atividade na difusão de boas práticas no Akatu moldou as percepções do brasileiro que é pioneiro do movimento do consumo consciente no Brasil.

"Ao decidir comprar os produtos de uma empresa, o consumidor está "votando" na aprovação das práticas sociais e ambientais dessa empresa, consciente ou inconscientemente", diz Mattar.

Aos poucos, ele foi introduzindo também novos hábitos de consumo em seu dia a dia. "Enquanto há possibilidade de consertar, reformar, fazer "upgrade", não vou comprar um produto novo. Desta forma, deixo de demandar recursos da natureza a não ser que seja realmente necessário".

A seguir, trecho da entrevista concedida à Folha.

Folha - Qual a importância do consumidor na mudança da produção e do consumo?
Helio Mattar - O movimento de consumidores começou a olhar para impactos ambientais da produção e pressionar por produção mais limpa desde a década de 1960 nos Estados Unidos, quando houve a pressão para o banimento do DDT [primeiro pesticida moderno] na agricultura.

A partir da década de 1990, houve o primeiro caso global de pressão por prática social adequada, quando a Nike foi denunciada por uso de mão de obra infantil na produção de bolas de futebol no Paquistão. Ainda que fosse uma prática de um terceirizado distante na cadeia produtiva, a Nike sofreu fortemente a pressão e o boicote dos consumidores.

Quando o Brasil entrou nesse movimento global?
Os movimentos de caráter ambiental e social começaram mais tarde no Brasil, que se limitou durante muitos anos às questões de direitos dos consumidores junto às empresas, a partir da aprovação do Código do Consumidor.

Um exemplo marcante no plano social se deu com a Zara, por sua produção no Brasil usando trabalho de bolivianos em condições equivalentes à escravidão. A empresa foi fortemente confrontada pelos consumidores brasileiros por essa prática inadequada.

Qual a mudança mais importante de comportamento para passar a consumir conscientemente?
Não há uma mudança de comportamento que se sobreponha às outras em termos de importância para o consumo consciente ou estilos de vida mais sustentáveis, e, ainda mais, que se aplique a todas as pessoas.

No entanto, como o consumo consciente implica também práticas cujos impactos são coletivos e de longo prazo, tais mudanças de comportamento são emblematicamente aquelas que demonstram que uma pessoa iniciou seu percurso para contribuir para a sustentabilidade.

Nesse sentido, um bom exemplo é a separação dos resíduos e envio para reciclagem. Nessa medida, pode-se dizer - e uma pesquisa qualitativa do Akatu, de 2015 assim demonstrou - que o comportamento de separação para a coleta seletiva é o primeiro indicador de que uma mudança está ocorrendo.

Qual é o impacto deste tipo de mudança individual?
Isso é especialmente importante na medida em que as empresas se envolvem na economia circular, pois sem a ação do consumidor de separação de resíduos e envio para reciclagem uma boa parte do esforço de economia circular pelas empresas está inviabilizado.

Por outro lado, um bom ponto de partida para alguém que esteja interessado em ser um consumidor mais consciente é observar seus comportamentos e hábitos de consumo como uma boa maneira de contribuir, cotidianamente e de maneira positiva, com a sociedade e o meio ambiente.

As pesquisas mostram que as pessoas querem contribuir e que isso ajuda a dar sentido às suas próprias vidas. Pois o consumo consciente é uma forma de voluntariamente contribuir todos os dias, podendo ser adotado a partir de medidas simples e que podem ser facilmente praticadas.

Pode dar um exemplo?
É o caso de pessoas que, ao buscar uma alimentação mais saudável, passam a procurar mais informações nas embalagens dos alimentos, criando assim o hábito de ler atentamente os rótulos dos produtos que consomem. Elas acabam, muitas vezes, por substituir alguns produtos comprados anteriormente.

Ainda que um ato de impacto individual no primeiro momento, se todos os consumidores fizerem o mesmo, as empresas buscarão atender à demanda por produtos mais saudáveis. Como vem acontecendo de fato.

Por que se envolveu com esse tema?
Meu envolvimento se deu por conta de meu forte engajamento no tema da Responsabilidade Social Empresarial. Eu fui um dos cofundadores do Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social, tendo atuado como Diretor e membro do Conselho Deliberativo por anos.

Ao longo do tempo, ficou claro que havia diversos "indutores" da responsabilidade social empresarial, entre eles, um dos mais importantes, seria o consumidor.

Ao decidir comprar os produtos de uma empresa, o consumidor está "votando" na aprovação das práticas sociais e ambientais dessa empresa, consciente ou inconscientemente.

É fundamental que este seja um "voto consciente" dado o forte impacto das atividades de uma empresa sobre um enorme número de stakeholders [parceiros].

É preciso que o consumidor tenha a percepção correta do poder contido em seus atos de consumo. Na compra, e no uso e no descarte de produtos ou serviços. E que ele use tal poder na busca dos melhores impactos possíveis.

Essa foi a origem do meu envolvimento com o que denominamos no Akatu de "consumo consciente", definido como um "consumo com um melhor impacto".

Que mudanças esse engajamento provocou em sua vida pessoal?
Minha vida foi se transformando conforme meu trabalho no Akatu. Atento desde o primeiro momento para a responsabilidade social das empresas e buscando escolher aquelas que melhor impacto tinham sobre a sociedade, gradualmente fui me tornando um consumidor mais consciente.

Curiosamente, quando fiz o Teste do Consumo Consciente [desenvolvido pelo Akatu], eu me posicionei um pouco abaixo do terceiro nível de consciência, que é o consumidor engajado. Levou cerca de quatro anos para que eu me tornasse um consumidor consciente, de acordo com o teste.

Comecei a comprar em mercados de segunda mão sempre que possível. Passei a reformar e consertar produtos mesmo quando a assistência técnica diz que seria melhor comprar um novo...

Enquanto há possibilidade de consertar, reformar, fazer "upgrade", não vou comprar um produto novo. Desta forma, deixo de demandar recursos da natureza a não ser que seja realmente necessário."

FORMAÇÃO
Engenheiro de produção, doutor em engenharia industrial pela Universidade Stanford (EUA)

CARGO ATUAL
Diretor-presidente do Instituto Akatu.

CARREIRA
Foi durante 5 anos membro do Conselho de Consumo Sustentável do Fórum Econômico Mundial. É um dos fundadores do Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social e membro de comitês de sustentabilidade do Grupo Pão de Açúcar, da Unilever global e da Dow Chemical global.