Folha de S.Paulo

Estamos animados com a melhora do Brasil, diz ministro argentino


A menos de uma semana da eleição legislativa (22 de outubro) que deve mudar o desenho do Congresso argentino —pesquisas apontam um aumento das cadeiras de aliados do governo, ainda que o peronismo deva seguir sendo maioria—, a gestão de Mauricio Macri começa a colher os primeiros frutos de uma retomada econômica, após um 2016 difícil.

As cifras oficiais que o governo celebra são as da recuperação da indústria e da construção e uma queda de 3,6% da pobreza —depois de ter tido um aumento pronunciado logo após a posse de Macri, em dezembro de 2015.

O PIB é outro ponto de otimismo. O governo estima alta de 3% neste ano, maior que a previsão do FMI: 2,5%.

Economia argentina - Variação do PIB ante o ano anterior, em %

A inflação ainda segue como um tema de preocupação, e que vem sendo bastante explorado na campanha eleitoral pela oposição kirchnerista. Apesar de ter perdido força em relação ao nível de 2016, o índice de preços acumula alta de 17,6% até setembro —ante 1,78% no Brasil.

Em entrevista à Folha, em seu gabinete, em Buenos Aires, o ministro da Fazenda, Nicolás Dujovne, mostrou otimismo com relação aos números da macroeconomia e afirmou que a retomada do crescimento do Brasil ajudará a Argentina.

Folha - Quão importante é para a Argentina, hoje, que a economia brasileira se recupere?

Nicolás Dujovne - Se olharmos o peso do Brasil nas exportações argentinas, não é o mesmo de dez anos atrás, porque nesse período nós diversificamos as nossas vendas. Mas essa diversificação ocorreu mais no setor agrícola.

Na indústria, o Brasil continua tendo um peso enorme. Quando o Brasil vai mal, nossa indústria de manufatura vai mal. Portanto estamos animados com a perspectiva de o Brasil voltar a crescer. É relevante para toda a economia, mas muito em particular para a manufatura —especialmente para a de automóveis e de autopeças. Também melhora o fluxo de transporte, porque o comércio entre os dois países se transporta por terra.

Nos anos mais difíceis para o Brasil, 2015 e 2016, quando a economia se contraiu cerca de 4% por ano, para a Argentina o impacto foi de 0,5 ponto percentual do PIB. Ou seja, deixamos de crescer 0,5% devido ao Brasil. Portanto, é muito importante para nós que o Brasil volte a crescer.

Na época da campanha para presidente na Argentina, em 2015, em algumas províncias de economia muito vinculada ao Brasil, como a de Córdoba, se falava muito em "acabar com a Brasil-dependência". Vocês apostaram nisso?

Em parte, sim. Hoje, a indústria automotiva é mais independente do Brasil que antes. Por exemplo, ampliamos nosso nível de exportações a outros países da América Latina e para as Américas Central e do Norte. Também exportamos para a Colômbia, a Europa e a Austrália. Mesmo assim, para a indústria automotiva, o Brasil segue sendo o principal mercado. Não apenas em termos do que pode absorver de produção local da Argentina, mas também do quanto deixam de nos exportar quando entra em recessão.

Economia argentina - Variação do índice de inflação ante o ano anterior, em %

Eu diria que a dependência é menor do que a que tínhamos há alguns anos, mas continua muito importante.

O governo argentino fez algumas projeções para este ano, de crescimento da economia de 3%, de inflação em 17%, mas pelo visto esses números não vão ser atingidos, não?

Creio que vamos chegar muito perto em quase todas as variáveis. Começaria pelo Orçamento, porque vamos cumprir com o que se votou. O gasto executado de 2017 vai ser apenas 2,8% diferente do que foi sancionado no fim de 2016.

Isso é uma novidade, porque na Argentina os Orçamentos terminavam com desvios de mais ou menos 20% nos gastos. De 2004 a 2015, a média desse desvio foi de 18,5%, mas houve anos em que chegou a ser de 30% a 35%, como em 2014. Era importante para nós recuperar o orçamento como ferramenta para a discussão da política econômica.

Quanto ao crescimento, pensamos que vai ser muito próximo aos 3%. Já a inflação vai ser um pouco mais alta que os 17% que tínhamos como meta, mas não muito mais.

Quando falamos de inflação, perdemos o foco com relação à enorme redução na comparação com 2016. Coloca-se muito o foco no desvio com relação à meta, mas não na enorme diminuição que houve, mesmo num contexto em que normalizamos os preços dos serviços públicos [com retirada de subsídios]. No fim de 2017, os números serão muito parecidos aos que tínhamos colocado como meta.

Economia argentina - Exportações argentinas para o Brasil de janeiro a agosto, em US$ bi

A pobreza, que teve um aumento no começo da gestão Macri [de 28% a 32%], voltou a baixar. Essa é uma tendência?

A pobreza é uma das variáveis que não figuram no Orçamento, mas que são o coração do funcionamento econômico. Estávamos convencidos de que ao longo do ano íamos baixar essa cifra, que ainda é alta, e os frutos disso estão sendo vistos. Sim, é um processo que vai se aprofundar.

A inflação de 2018 será de um dígito?

Não, nossa meta de inflação em um dígito é apenas para 2019. Para o ano que vem é de 10%, com uma variação de dois pontos, ou seja, deve ficar entre 8% e 12%.

O fato de este ser um ano eleitoral [no próximo dia 22 de outubro há eleições legislativas] o restringiu em algo?

Por causa das eleições, tivemos um Congresso que funcionou muito pouco. Isso me restringiu em alguns projetos em que estávamos trabalhando, como o da reforma tributária, que decidimos esperar para lançar depois da eleição para que não fosse contaminado pela disputa eleitoral.

Foi uma opção nossa não enviar ao Congresso antes das eleições discussões que pudessem tomar cores políticas e misturar-se à campanha.

Mas enviamos algumas coisas das quais ainda não temos resposta. Enviamos em 15 de setembro o Orçamento para o ano que vem, enviamos a nova lei de responsabilidade fiscal e um projeto de reavaliação fiscal para as empresas.

Há economistas que creem que, para que os produtos argentinos se tornem mais competitivos no exterior, seria preciso desvalorizar ainda mais o peso. Está nos planos?

Quando olhamos os últimos cem anos de história argentina, vemos que não houve nenhuma relação entre o tipo de câmbio nominal e o tipo de câmbio real.

O câmbio real depende de variáveis reais. O tipo de câmbio nominal influi no curtíssimo prazo, mas a médio e longo prazo não influi em nada.

O que influi é o tipo de câmbio real. E para melhorar o câmbio real é preciso reduzir o peso do gasto público com relação ao PIB. Se o Estado é grande, gasta muito. E também necessitamos uma economia mais integrada ao mundo. São coisas que ocorrem gradualmente.

Enquanto isso, vamos melhorando o que tem que ver com as relações trabalhistas, enfrentando a indústria dos julgamentos trabalhistas, melhorando a infraestrutura, para que seja mais barato transportar as coisas dentro da Argentina, com medidas como voltar a construir estradas. Estamos fazendo gastos logísticos para que os preços possam ser mais competitivos.

A reforma tributária, que apresentaremos depois da eleição, também vai nesse sentido. Não acredito que apenas desvalorizar o peso resolveria tudo, seria uma solução simples demais.

O Brasil aprovou uma reforma trabalhista considerada bastante radical. Dentro do próprio Mercosul, houve quem fizesse críticas, como o Uruguai. E aqui se diz que o governo também fará uma. Como seria?

Cada país tem de escolher um esquema que se adeque à idiossincrasia do país. O que achamos melhor fazer aqui são acordos setor por setor, que incluem os sindicatos, as empresas e o governo, para ver como fazer para que cada setor possa funcionar melhor.

Porque cada área tem sua forma de funcionamento, o que faz com que a aplicação de um convênio geral seja demasiado inflexível para o modo de operar específico de outros setores da economia. Algo que é necessário modificar no setor do petróleo pode não funcionar para o comércio, e assim por diante.

E, junto com isso, o que fizemos foi atacar a indústria dos julgamentos trabalhistas, modificando a lei de acidentes de trabalho, por exemplo. Na Argentina havia uma incerteza muito grande sobre os custos do término de um contrato de trabalho porque estavam sempre judicializados, era algo que não funcionava bem.

Mas há muito a ser feito nessa área, porque queremos resolver o problema da informalidade, que está em torno dos 30%. Vai haver um projeto para incorporar esses trabalhadores ao marco legal.

Estamos fazendo um pacote que se adapte à idiossincrasia do mercado argentino.

Mas não é ruim para o Mercosul que cada país flexibilize as leis trabalhistas de um jeito diferente do outro?

O Mercosul não implementa de forma homogênea os sistemas trabalhistas e impositivos. Cada país é soberano e pode avançar nas reformas que considerarem necessárias. Podemos trabalhar com taxas comuns para regular o comércio internacional, mas não temos como harmonizar o resto das políticas setoriais ou macroeconômicas.

O Brasil tem o direito de fazer a reforma trabalhista que achar necessária. A Argentina decidiu encarar a questão do ponto de vista setorial, e o Uruguai terá sua proposta.

De qualquer modo, mesmo fazendo as discussões por setor, a tendência é modernizar leis trabalhistas antigas e tradicionais, tanto no Brasil como na Argentina. Esse conjunto de leis que regularizou os dois mercados de trabalho está superado? A tendência é retirar direitos dos trabalhadores?

Não vejo como superado. A pergunta que temos de responder é como fazemos para ter mais trabalho na Argentina, e isso não implica ter menos direitos. A ideia é fazer com que cada setor encontre a maneira de funcionar melhor e criar mais empregos.

Graduado em economia pela Universidade de Buenos Aires. Tem pós-graduação pela Universidade Torcuato Di Tella (Argentina)

Assumiu o Ministério da Fazenda da Argentina no começo deste ano. Trabalhou no Citibank e nas consultorias Alpha e Macroeconómica. Foi economista-chefe do Banco de Galícia, um dos maiores do país, de 2001 a 2011. Também atuou como consultor do Banco Mundial