Folha de S.Paulo

Lição de empreendedorismo tira graça de obra sobre China in Box


O início de uma carreira empreendedora muitas vezes dá uma boa história, daquela em que o protagonista desafia a lógica com uma certeza de que sua ideia está destinada ao sucesso, mesmo com grandes adversidades.

Nesse ponto, o livro Sonhos in Box, de Robinson Shiba, criador da rede China in Box, pioneira na entrega de comida oriental no Brasil, não deixa a desejar.

Neto de imigrantes japoneses, o empresário nasceu no Paraná e morou na periferia de São Paulo.

Após convencer o pai de que passar uma temporada nos EUA com um amigo seria uma ótima ideia, embarcou na viagem levando nos bolsos economias de anos.

Foi assaltado em Los Angeles e, para não voltar para casa envergonhado, resolveu trabalhar em um restaurante chinês, onde os funcionários eram mexicanos. Ali, conheceu as caixinhas para entrega de yakisoba que mais tarde trouxe para o Brasil.

Aluno que preferia frequentar festas a aulas, formou-se dentista, engravidou a namorada e resolveu montar o negócio, tudo na mesma época, um pouco depois de ele perder a mãe. Como as poupanças dos brasileiros estavam bloqueadas pelo Plano Collor, foi preciso que o pai vendesse um imóvel para investir na empreitada.

Shiba conta com graça a respeito da primeira ligação que sua empresa recebeu, em seu endereço na avenida Rouxinol, em Moema. Era uma senhora que buscava não comida chinesa, mas um box para banheiro chinês. A mulher se tornou sua cliente.

No relato, sabemos que Shiba virou especialista em comida oriental visitando todas as casas que podia em São Paulo. E aproveitou para contratar o cozinheiro do restaurante que mais gostou.

Tudo isso acontece no primeiro quarto do livro, em que a história é contada de modo cronológico até a chegada dos primeiros franqueados.

Se até aí a leitura é fluida e apoiada em boas histórias, o restante da obra perde muito em ritmo e objetividade.

Na maior parte do tempo, o que segue é um longo discurso sobre empreendedorismo, muitas vezes retomando histórias do início do livro.

Shiba trata de temas como a importância do entusiasmo no trabalho, do pensamento positivo e do que o move para investir em uma ideia (com referências à versão brasileira do programa de TV Shark Tank, em que ele é um dos investidores que avaliam e apostam em ideias negócios).

Ainda é possível encontrar situações em que o empresário foi desafiado e temos a sorte de conhecê-lo mais por ações do que pela retórica.

Isso acontece, por exemplo, quando trata do dia em que foi enquadrado pela mulher, por estar dedicando mais tempo e energia à empresa do que à família. A solução: trazer os parentes para o negócio.

O empresário fala sobre fracassos, no capítulo Complexo de Midas, em que trata da prepotência de quem teve um sucesso e acha que vai ganhar sempre. Conta ter investido em 13 negócios que deram errado e admite que, se não tivesse dado certo de primeira, sua história teria sido muito diferente.

Conta como foram suas conversas com fundos que se interessaram por comprar parte do negócio. Ele ficou assustado com a agressividade dos planos dos investidores e passou por momentos de angústia até se sentir confortável com suas opções.

Porém, quando deixa o factual, o texto muitas vezes se perde em divagações.

Em um par de páginas, por exemplo, o leitor parte de um comentário sobre a velocidade dos avanços tecnológicos e passa pelos seguintes temas: importância dos processos manuais na gastronomia, paz que a presença humana traz, conexão entre líder e colaborador, importância da curiosidade, atenção a processos e necessidade de assumir responsabilidades e tratar bem os outros. Isso entremeado com caso de cozinheiro que desperdiçava comida.

Apesar dessa irregularidade, o livro permite conhecer um empresário carismático, que tem a ensinar com seu entusiasmo e que não esconde suas fraquezas.

Sonhos in Box
QUANTO: R$ 39,90 (208 PÁGS.)
AUTOR: ROBINSON SHIBA
EDITORA: BUZZ