Folha de S.Paulo

Cresce no globo a busca por algodão certificado


Neste mês, 36 grandes marcas de roupas, como H&M, Nike, Adidas, Burberry e Asos, se comprometeram a usar 100% de algodão sustentável em suas confecções até 2025.

Um cenário de possibilidades para o Brasil,maior produtor de algodão sustentável certificado do mundo. O país pode, segundo Arlindo de Azevedo Moura, presidente da Abrapa (Associação Brasileira dos Produtores de Algodão), ser o terceiro maior exportador do produto na próxima safra —hoje é o quarto.

O algodão é uma matéria-prima que usa tradicionalmente em sua produção muita água e muitos defensivos. Segundo o estudo "Sustainable Cotton Ranking" de 2017 feito por WWF, Solidaridad e Pesticide Action Network UK, em 2009 o algodão era responsável por 6,2% das vendas de pesticidas no mundo.

Para que seu algodão seja considerado sustentável, o produtor deve comprovar boas práticas trabalhistas, agrícolas e sociais. No Brasil, há duas certificações possíveis: a BCI, internacional, e a ABR, nacional, mais rígida.
No Brasil, 81% da safra tem esse carimbo, diz Fernando Pimentel, presidente da Abit (Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção).

A cada ano, afirma Moura, o número cresce um pouco. E percebe-se que quem tem algodão sustentável apresenta melhores resultados. "A produtividade tem sido em torno de 13% maior, por causa do maior rigor em controle de pragas, em manejo, em economia de água."

Seja por regulação, marketing, valores ou consciência do impacto da produção no ambiente, marcas do mundo já têm investido no algodão certificado e ainda há espaço de crescimento.

O "Sustainable Cotton Ranking" mostra que das 25 empresas que participaram das duas edições do estudo, 14 compraram mais algodão certificado. A C&A foi a que mais avançou, quase dobrando sua pontuação no ranking.

Como o conceito de sustentabilidade cresce no mundo, diz Pimentel, é uma oportunidade relevante para a indústria da moda nacional ter essa vertente bem desenvolvida. "É uma competitividade que o Brasil poderá desenvolver, uma pegada que pode ser muito bem explorada."

Na opinião de Pimentel, o ambiente de negócios no Brasil não é favorável. "É um país de infraestrutura deficiente, de juros elevados, do ponto de vista da burocracia é um inferno." É mais fácil se destacar em nichos mercadológicos —como o da sustentabilidade, no qual o país tem condições de ir bem. "Esse é um caminho que o Brasil deverá explorar com competência. Temos a matéria-prima e sabemos fazer."

O Brasil já teve mais de 4 milhões de hectares de algodão e foi um grande exportador da matéria-prima —até que suas plantações foram dizimada pela praga do bicudo.

Foi o caso da região de Catuti, no norte de Minas Gerais, que era uma das principais produtoras de algodão no Brasil nas décadas de 1970 e 1980, sofreu com a praga nos 1990 e reencontra seu caminho pela sustentabilidade.

Hoje a região é um dos alvos do projeto Tecendo Valor, da ONG Solidaridad em parceria com o Instituto C&A, que também inclui a região de Guanambi, na Bahia.

"Temos um programa de mais cinco anos de fomento à produção sustentável da cotonicultura familiar. Estamos com 106 famílias cadastradas. A meta é, até o ano que vem, chegar em torno de 200, e em 400 a 500 famílias nos próximos cinco anos", diz Harry van der Vliet, "programme manager" de algodão da Solidaridad.

O projeto faz um monitoramento para que haja um manejo integrado das pragas —estratégia com base no controle ecológico e menor uso de agroquímicos.

"É bastante técnica essa parte e, para muitos produtores, é mais fácil garantir o negócio e aplicar o defensivo. Há um trabalho acentuado nesse sentido para diminuir o número de aplicações."

O Tecendo Valores prevê assistência técnica para os produtores e a estruturação da comercialização. "De nada adianta o pessoal conseguir produzir bem o algodão e ter que vender para um atravessador", diz Van der Vliet.

A produção de algodão no Brasil vem crescendo. "O Brasil há dois anos produzia 950 mil hectares de algodão. Hoje é pouco mais de 1 milhão. Imagino que possa chegar a 2 milhões", estima Moura. Nos últimos dois anos, a produção nacional, cuja metade é exportada, passou de 1,2 milhão de toneladas a 1,7 milhão. "O algodão brasileiro é bem conceituado no mundo."