Folha de S.Paulo

Parceria entre indústria e redes de catadores empurra reciclagem


Quando chegou ao mercado brasileiro de cervejas, no final de 1989, a lata de alumínio prometia uma revolução. Tirava de circulação sua antecessora, mais pesada (feita de ferro, aço e estanho), e era 100% reciclável.

De lá para cá, cresceu o debate em torno da sustentabilidade e formou-se uma teia que envolve catadores de material reciclável. Eles passaram a se organizar em cooperativas e empresas, de olho na questão ambiental e na logística reversa dos produtos.

A latinha de alumínio continua como grande exemplo dessa cadeia: hoje, 98% das latas consumidas no Brasil, cerca de 24 bilhões por ano, são recicladas. Esse índice coloca o país na liderança de reaproveitamento do material (a média mundial é de 69%).

"O alumínio sempre teve um valor muito alto em relação a outros materiais recicláveis e sabíamos que aquilo poderia ser uma alternativa de emprego e renda", diz Renault Castro, presidente- executivo da Abralatas, associação que reúne os fabricantes do setor.

"Grande parte de nosso êxito não seria alcançado sem a atuação de catadores e cooperativas. Foi então que passamos a enxergá-los como parceiros, e nossa indústria começou a investir nesse tipo de trabalho", completa.
Nos últimos cinco anos, diz ele, as empresas do setor contribuíram com US$ 200 milhões na modernização e capacitação de cooperativas e na formação de catadores.

Outros setores seguiram o caminho das latas. A indústria do plástico, por exemplo, recicla hoje 25,8% do que é consumido de sua produção: 550 mil toneladas por ano.

"Se compararmos com outros setores, o índice pode parecer baixo. Mas é preciso levar em conta que hoje o plástico tem uma infinidade de aplicações", diz José Ricardo Roriz, superintendente da Abiplast (Associação Brasileira da Indústria do Plástico).

A associação fez junto às cooperativas um trabalho de capacitação para que os catadores identifiquem e separem de melhor forma o material reaproveitável. "Com a indústria, preparamos uma cartilha com recomendações sobre eficiência e design sustentável, para que sejam produzidas embalagens fáceis de serem recicladas."

Outro setor que se beneficia dessa teia é o de caixas de produtos longa vida. Hoje, 60 mil toneladas (22,1%) dessas embalagens têm destinação após seu consumo. A Tetra Pak, maior fabricante do produto, investe na pesquisa de itens que possam ser feitos a partir de seus resíduos.

"A embalagem é composta por 75% de papel, 20% de plástico e 5% de alumínio. As cooperativas vendem o que foi coletado para 14 empresas que fazem a separação desses materiais", diz a diretora de meio ambiente da empresa, Valéria Michel.

Essas empresas comercializam a fibra de papel, que pode ser usada na produção de caixas de papelão e embalagens para ovos. Já o resíduo da camada de plástico e alumínio é vendido, por exemplo, para a indústria da construção civil, que o transforma em telhas. "Substitui aquelas mais antigas, de amianto. E, por conta do alumínio, o produto reflete boa parte do calor", afirma Michel.

O cenário da reciclagem no Brasil ainda está longe de ser o ideal. Em 2016, o país produziu 73,8 milhões de toneladas de lixo urbano, segundo a Associação Brasileira das Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais. Desse total, 31,9% é composta por materiais recicláveis, mas só 3% são reciclados.

"Ainda esbarramos na falta de interesse de muitos municípios em investir numa coleta seletiva que inclua a importância das cooperativas", afirma Roberto Rocha, coordenador da Associação Nacional de Catadores.

Roberval Prates Reis, coordenador da Rede Cata Sampa, que reúne 22 cooperativas da região metropolitana de São Paulo, lembra que muitos catadores ainda resistem a se filiar a uma cooperativa.

"Eles estão acostumados a trabalhar sozinhos e a receber diariamente. O problema é que assim ficam reféns de ferros-velhos e atravessadores, que pagam bem menos pelo material que recolhem."

"O cooperativismo é uma opção para que se tenha uma renda mais justa. Quando se filia a uma associação ou entidade, o catador começa a atuar como se fosse dono de seu próprio negócio", diz Marco Morato, analista técnico e econômico da Organização de Cooperativas do Brasil.

A indústria de bebidas deu um passo para apoiar cooperativas. Ambev e Coca-Cola têm um projeto que pretende, entre outras metas, ajudá-las no caminho até a excelência em gestão e infraestrutura, diz Andrea Matsui, gerente de sustentabilidade da Ambev.

"Visa também colaborar com a meta do Acordo Setorial de Embalagens, de reduzir no mínimo 22% das embalagens em aterros sanitários até 2018", diz Pedro Rios, vice-presidente de relações corporativas da Coca-Cola Brasil.