Folha de S.Paulo

Google põe nas ruas carro autônomo sem motorista para emergências


Os primeiros carros verdadeiramente autoguiados —veículos que circulam pelas ruas sem que ninguém esteja presente para assumir o controle do veículo em caso de emergência— finalmente chegaram.

A Waymo, que começou como um projeto de veículos autoguiados do Google, anunciou nesta terça-feira (7) que tinha carros autoguiados circulando em certas áreas da cidade de Phoenix, Arizona, sem a presença de operadores no banco da frente.

As pessoas que tomarão parte do teste da Waymo em Phoenix, localizada em uma região desértica do sudoeste dos EUA, poderão chamar os carros por meio de um app "já nos próximos meses", anunciou a companhia.

Tema de muita especulação nos últimos anos, os carros guiados têm o potencial de se tornar uma das novas tecnologias mais desordenadoras e ocupam posição central em uma corrida entre grandes montadoras de automóveis e grupos de tecnologia nos Estados Unidos, China e Europa.

Mas, embora diversos grupos já estejam testando protótipos nas ruas com motoristas por trás do volante para assumir o controle em caso de emergência, a maioria dos observadores acredita que veículos plenamente autoguiados só estarão no mercado dentro de dois anos.

John Krafcik, o presidente-executivo da Waymo, anunciou o avanço em uma conferência de tecnologia em Lisboa, nesta terça-feira.

Funcionários da empresa estão testando o sistema; eles se acomodam nos assentos traseiros dos carros, escolhem uma de três rotas e depois permitem que o veículo cuide de todo o resto.

O teste, embora limitado a uma área não especificada da cidade, "não é uma demonstração ou evento extraordinário", mas o início de "uma nova fase para a Waymo e para a história dessa tecnologia", disse Krafcik.

A empresa planeja expandir o teste para toda a área de Phoenix, com 1.500 quilômetros quadrados, mas não mencionou um cronograma específico.

O Google causou choque ao setor automobilístico ao revelar a primeira versão de sua tecnologia então rudimentar para veículos autoguiados, sete anos atrás, e subsequentemente investiu mais de US$ 1 bilhão em suas pesquisas sobre veículos.

Os rivais reconhecem que o grupo continua a ter vantagem tecnológica, embora os céticos questionem se a inteligência artificial dos carros é boa o suficiente para responder aos muitos eventos imprevistos que podem acontecer nas ruas, ou para interagir com seres humanos.

O medo de que o controle do Google sobre a tecnologia dos veículos autoguiados venha a conferir à empresa um poder semelhante ao que a Microsoft exercia sobre os computadores no passado também causou dificuldade para que o grupo de internet encontre aliados no setor automobilístico.

Apesar de uma longa campanha diplomática, o único sucesso do grupo até agora foi junto à Fiat Chrysler, e um dos modelos de minivans da montadora foi adaptado para o teste em Phoenix. Isso forçaria o Google a financiar e a cuidar da manutenção de uma frota de carros autoguiados grande o bastante para sustentar um serviço de transporte de passageiros, uma proposição potencialmente dispendiosa se a empresa tentar expandir a ideia e criar um serviço comercial pleno em diversas cidades.

No entanto, Krafcik disse que manter os carros em operação resulta em ganhos de eficiência.

"Uma pequena frota de carros plenamente autoguiados poderia atender a toda uma comunidade", disse.

A Waymo acredita que seja a primeira empresa a atingir aquilo que o mundo dos carros autoguiados define como Nível 4, o que significa que seus carros podem operar de maneira plenamente autônoma em áreas que tenham sido cuidadosamente mapeadas e testadas.

"É uma decisão que revela muita confiança", disse Michael Harley, editor do "Keley Blue Book" e da "Auto Trader", duas publicações sobre comércio de automóveis.

"A vantagem da Waymo é que eles têm literalmente milhões de quilômetros rodados", disse, por estarem testando carros autoguiados há anos e já terem recolhido dados "sobre 99% das coisas que podem acontecer nas ruas".

Ele acrescentou que isso havia levado a Waymo a "deixar para trás" marcas como a Audi, que está a ponto de colocar no mercado uma tecnologia menos avançada de assistência a motoristas conhecida como Nível 3.

Uber, General Motors, Delphi, BMW e outros vêm conduzindo testes para chegar ao Nível 4, mas todos ainda mantêm um motorista nos seus carros de teste.

Os críticos argumentam que não se sabe muito sobre a tecnologia da Waymo.

"Realmente não sabemos o que está acontecendo, pelo menos não com base em dados significativos", disse John Simpson, do grupo de defesa do consumidor norte-americano Consumer Watchdog.

"Preocupa-me que eles estejam seguindo o caminho costumeiro do Vale do Silício, de lançar alguma coisa em versão beta e corrigir os defeitos ao longo do caminho."

O Arizona é um dos diversos Estados norte-americanos que concordaram em permitir testes de carros autoguiados em suas ruas e estradas, desde que eles respeitem os padrões federais de segurança. O Google satisfez esse requisito recentemente, ao concluiu um processo de autocertificação.

Krafcik disse que "objetivo final" de sua empresa era levar a tecnologia a "mais cidades nos Estados Unidos e em todo o mundo".

Uma das primeiras áreas onde isso deve acontecer é Mountain View, na Califórnia, onde fica a sede da Alphabet, a controladora da Waymo.

A empresa vem mapeando exaustivamente as ruas em torno de sua sede, e testando carros na área, desde os primeiros dias do projeto do Google, e as autoridades regulatórias indicaram que pretendem relaxar as regras que restringem a circulação de veículos autoguiados no Estado no começo do ano que vem.