Folha de S.Paulo

Ricos e pobres disputam cubículos em meio a 'hipergentrificação' em NY


A uma plateia que pagou US$ 1.000 por cabeça para um baile republicano na quinta (14), Donald Trump falava sobre o prédio que abriga o evento, o primeiro que reformou em Manhattan, em 1980: o hotel Grand Hyatt.

Gaba-se de outro empreendimento seu com vista para o Central Park, onde criou uma pista de gelo porque num inverno a filha pediu.

Do lado de fora, a aposentada Elizabeth Cooper, 68, aplaude um protesto contra o pré-candidato à Casa Branca, no qual o rosto de Trump aparece em cartazes em formato de fezes. "Está tudo uma merda mesmo."

Sua filha de 34 anos não sai de casa porque "os aluguéis estão ridiculamente caros".

As duas racham US$ 3.800 (R$ 13,4 mil) por um estúdio a seis quadras da Trump Tower, onde o empresário mora numa cobertura tríplex decorada em ouro e mármore. Uma canga divide o espaço entre mãe e filha, garantindo "alguma privacidade".

O drama não é só de Elizabeth. No último trimestre de 2015, o setor imobiliário em Manhattan estourou a champanhe. O preço médio de um apartamento na ilha beirou US$ 2 milhões (R$ 7 milhões).

'HIPERGENTRIFICAÇÃO'

E o drama não é só de Manhattan. "Boa parte do Brooklyn ficou ainda mais cara na última década. Bairros como Brooklyn Heights sofrem 'hipergentrificação', com bilionários expulsando os milionários", diz Kennedy Gould, diretor do Programa de Sustentabilidade Urbana.

Nova York tem oferecido soluções exóticas para driblar sua crise habitacional.
O site Common, por exemplo, cobra a partir de US$ 1.800 (R$ 6.350) por um quarto em um de seus "apartamentos comunitários" -espécie de república deluxe, com wi-fi e "sala de entretenimento".

Em 2012, o então prefeito, Michael Bloomberg, via nos microapartamentos a saída.

Após alterar leis municipais que proibiam lares menores do que 37 m², ele anunciou o Carmel Place, edifício com 55 unidades de 23 m² a 34 m² (daquelas que o sofá vira cama à noite), entre US$ 2.000 (R$ 7.000) a US$ 3.000 (R$ 10,5 mil) mensais, na região central de Manhattan.

Parte deles seria subsidiada (mas sem os projetos de decoração funcional de luxo do condomínio) a US$ $950 mediante seleção.

O professor da Universidade de Buffalo Robert Silverman questiona essa ideia de "moradia popular": "Isso não resolve o problema, pois foca gente de renda média a alta".

No Censo de 2010, a cidade tinha 1,8 milhão de lares com uma ou duas pessoas e só 1 milhão de domicílios com até um quarto. Hoje, um apartamento do tipo custa em média US$ 3.280 (US$ 11,5 mil) mensais, segundo o site do setor imobiliário "Zumper".

As mudanças para o Carmel Place começam em maio, e a repórter, que se passou por potencial inquilina, não precisa se preocupar com claustrofobia, diz um supervisor do projeto. Ele destaca espaços coletivos no prédio, como jardim e academia.

Mesmo causas nobres saem pela culatra, diz Gould. Parques novos, por exemplo, fazem do entorno alvo da "gentrificação verde". "Políticas ambientais abastecem o fenômeno e expulsam pobres e comunidades negras."

"Detenha a torre! Cadê nosso parque?" Escrita com fitas verde e laranja numa grade à beira do rio East, a mensagem contra uma nova obra de luxo em Williamsburg ecoa manifestações pró-parque Augusta, em São Paulo.

Essa área no Brooklyn tematizou capa recente da "New York Magazine": "A Batalha dos Barbados", sobre a convivência entre judeus ultraortodoxos e recém-chegados hipsters (pense num jovem com bicicleta, barba e um suéter com cara de ser do avô). Em suma: está na moda.

Nos anos 1990, atraídos por preços baixos, vieram os artistas, e novos estabelecimentos brotaram feito cogumelo. Morar lá, hoje, é para poucos.

CIDADE DESAPONTADA

Em março, a Folha esteve num evento em que o prefeito de Nova York tratou a gentrificação como faca de dois gumes. Áreas verdes são boas, assim como prosperidade econômica. Mas quem não consegue arcar com os novos custos é obrigado a sair, "o que causa muita frustração", disse Bill de Blasio.

Em 2014, o democrata assumiu o cargo com a promessa de "pôr fim ao 'conto de duas cidades'", referência ao livro de Charles Dickens sobre uma Paris segregada.

Comprometeu-se a construir em dez anos 80 mil casas subsidiadas. "Para inúmeros nova-iorquinos, habitação a preços acessíveis é uma contradição em termos."

No fim de 2015, contudo, De Blasio teve de se explicar sobre a venda de uma casa de repouso para pacientes com Aids desativada. O edifício de 118 anos e 14 mil m² em Chinatown só era autorizado a servir de instituição de saúde. Nada de fins lucrativos.

Um grupo da área médica comprou-o por US$ 28 milhões, mais US$ 16,5 milhões para driblar a lei. Revendeu o imóvel por US$ 116 milhões.

O destino? Condomínio de luxo. De Blasio diz que ignorava o plano. Segundo Austin Finan, seu porta-voz, "a cidade ficou desapontada".

REAJUSTE COM LIMITES

Nem sempre foi assim. Nos anos 1970, as pessoas queriam mais é sair de Nova York.
Calcula-se que cerca de 800 mil foram embora. Na época, subiam taxas de criminalidade, desemprego e pobreza. Desciam, colateralmente, preços no mercado imobiliário.

Entre 1974 e 1980, o custo de casas na cidade caiu 12,4%, segundo o Furman Center, que pesquisa políticas públicas junto à Universidade de Nova York.

A cidade não é perfeita hoje. Em 2011, relatório da Prefeitura estimou que 46% da população vivia próxima da linha da pobreza -cerca de US$ 2.600 mensais (R$ 9.170) para uma família com dois adultos e duas crianças.

Pressões sobre moradia popular e gentrificação se tornam urgentes quando a média para alugar apartamentos de um só quarto supera US$ 3.000 mensais.

Para Kennedy Gould, do Programa de Sustentabilidade Urbana, é preciso fixar limites para o reajuste anual do aluguel ficar sempre abaixo do mercado -dificultando a expulsão de um inquilino para atrair outro que pague mais.

Hoje, diz, cerca de 1 milhão de domicílios têm aluguel sujeito a um teto, "mas esse número vem caindo".

O prefeito Bill de Blasio avançou na expansão de novas casas em março, quando o Conselho Municipal aprovou a primeira grande mudança em décadas na lei de zoneamento. O maior avanço, para especialistas, é só autorizar grandes projetos imobiliários que incluam unidades a preços populares.

Para o grupo Ban-Gentrification, que luta contra um Brooklyn gentrificado, medidas assim vêm com um risco. Ao permitir que empreendimentos de luxo construam moradias populares à parte, Nova York aceita uma segregação de "inquilinos por renda, o que desumaniza e discrimina quem ganha menos".