Folha de S.Paulo

Ilha vira prisão para mais de 900 refugiados recusados pela Austrália


O avião sobrevoa a densa floresta tropical da Ilha Manus, pouco tocada pelo homem, ao que parece. As águas do Pacífico Sul batem em praias desertas. A selva brilha, impenetrável. No aeroporto sem cercas, construído pelas forças de ocupação japonesas durante a Segunda Guerra Mundial, um cartaz dá as boas-vindas "à nossa linda ilha, paraíso sob o sol".

Poderia ser isso, uma faixa de céu de 96,5 km de comprimento. Mas, para mais de 900 pessoas de todo o mundo em busca de asilo, banidos pela Austrália para este rincão remoto do arquipélago da Papua Nova Guiné, Manus vem sendo o inferno – um exercício de três anos e meio de crueldade mental e física, conduzido sob sigilo quase total sob a copa verde dos trópicos.

Uma estrada pavimentada recentemente pela Austrália, como parte do pagamento à sua antiga colônia por acolher esse experimento punitivo na gestão de refugiados, leva a Lorengau, uma capital de nome romântico e miséria nada poética.

Ali encontro Benham Satah, um curdo que fugiu de perseguições na cidade iraniana de Kermanshah, a oeste do país. Detido na Ilha do Natal, na Austrália, depois de chegar ao país em um barco de contrabandistas vindo da Indonésia e mais tarde forçado a entrar em um avião para Manus, ele está apodrecendo aqui desde 27 de agosto de 2013.

Um limbo infinito destrói a mente. Mas voltar para casa pode significar enfrentar a morte: os refugiados não fogem de alternativas porque não têm alternativa. Os olhos castanhos claros de Satah estão embaçados. Suas pernas tremem. Ele é um rapaz que tem um diploma universitário em inglês e agora é uma pessoa sem nome, um mero número de registro – FRT009 – para funcionários australianos.

"Às vezes eu me corto", diz ele, "para poder ver meu sangue e lembrar: 'Ah, sim! Estou vivo.'"

Reza Barati, seu ex-colega de quarto no que os crachás de identificação desses homens indicam como Centro de Processamento de Além-Mar (Orwell ficaria orgulhoso), está morto. Era um curdo iraniano que foi assassinado aos 23 anos, em 17 de fevereiro de 2014. Satah testemunhou como o jogador de voleibol alto e silencioso foi espancado até a morte depois que uma multidão local escalou a parede da instalação. Os protestos dos requerentes de asilo haviam levado a tensões crescentes com as autoridades australianas e seus agentes de Manus.

O assassinato deixa Satah obcecado, mas é uma mera fração do custo humano de uma política que, desde 19 de julho de 2013, enviou mais de 2.000 solicitantes de asilo e refugiados a Manus e à pequena ilha de Nauru, no Pacífico, longe de olhos inquisidores. (Não pude obter um visto de imprensa para visitar Manus, mas fui assim mesmo)

As cifras de morte entre imigrantes birmaneses, sudaneses, somalis, libaneses, paquistaneses, iraquianos, afegãos, sírios, iranianos e outros são devastadoras: por autoimolação, overdoses, septicemia –como resultado de negligência médica–, abuso sexual e desespero crescente.

Um recente relatório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, de três especialistas médicos, revelou que 88% dos 181 requerentes de asilo e refugiados examinados em Manus sofriam de transtornos depressivos, incluindo, em alguns casos, psicose.

A crise mundial de refugiados, com seus 65 milhões de pessoas em movimento, mais do que em qualquer outro momento desde 1945, não conhece nenhum outro exercício de crueldade mais sinistro ou surrealista, mantido de forma permanente, do que as quase prisões do Pacífico Sul que a Austrália criou para seu fluxo de imigrantes.

A Austrália, como a Europa, mas em uma escala muito menor, enfrenta um verdadeiro dilema: o que fazer com imigrantes desesperados que tentam obter asilo de qualquer maneira? Suas movimentações ao redor do mundo vêm alimentando movimentos de direita em muitas sociedades desenvolvidas. A ansiedade relacionada a isso, seja em termos de emprego ou terrorismo, é alta e, como Donald Trump demonstrou, transformá-los em bode expiatório é algo eficaz.

As abordagens utilizadas para essa crise variam. Angela Merkel, chanceler alemã, recebeu mais de 1 milhão. Mas o governo australiano argumenta que ser duro é a única maneira de evitar que o país seja invadido por imigrantes.

O país "freou os barcos" e os contrabandistas da Indonésia que estavam por trás deles: essa é a essência do caso da Austrália. O governo diz que evitou mortes como aquelas no Mediterrâneo, onde mais de 4.000 imigrantes se afogaram neste ano.

Ao devolver os "furadores de fila", uma frase que ecoa em uma nação devotada à "justiça" para todos, preservaram o direito da Austrália de selecionar quem chega a um país vasto e vazio. A promessa oficial de que os que estão ilhados em Manus e Nauru nunca viverão na Austrália adquiriu veemência doutrinária.

Em Peter Dutton, ministro da imigração, o país tem seu próprio pequeno Trump. Em maio passado ele descreveu os requerentes de asilo como analfabetos empenhados em roubar empregos dos australianos, e sugeriu que "erros" foram cometidos quando se permitiu a entrada de muitos imigrantes muçulmanos do Líbano. Sua suave intolerância encontra eco em eleitores suficientes para influenciar as eleições.

Ao mesmo tempo, Manus e Nauru são um constrangimento crescente para a Austrália, um banquete para todos os principais tratados de direitos humanos.

"Há uma percepção crescente de que isso é insustentável", disse Madeline Gleeson, advogada australiana especializada em direitos humanos.

O primeiro-ministro Malcolm Turnbull sabe disso e precisa de uma saída. Depois que Omid Masoumali, um jovem iraniano, se queimou até a morte em Nauru este ano, um desenho de Cathy Wilcox representou a vergonha da Austrália. Acima de um homem em chamas, ela escreveu: "Não está se afogando".

O resultado é um acordo único com os Estados Unidos, anunciado no mês passado. Durante um período indeterminado, os EUA receberão um número não especificado de refugiados, com prioridade para mulheres, crianças e famílias que estão em Nauru. Os homens solteiros em Manus, presumivelmente, ficarão por último, se forem aceitos já com Trump no poder.

Turnbull disse que está confiante de que Trump não vai destruir o acordo. Mas, quando perguntei a Benham Satah se ele pensava que estaria logo nos Estados Unidos, ele pegou um cigarro e olhou para o mar: "Depois de três anos sofrendo aqui, só sei disso: a menos que você veja, não deve acreditar".

Encontrei Charlie Benjamin, governador de Manus, indignado.

"É moralmente errado despejar essas pessoas aqui e depois dizer: 'Austrália, jamais'", afirmou. "Nossa compreensão foi de que ajudaríamos em um processo e que os refugiados genuínos seriam deslocados, mas não existe nenhum processo."

Em abril passado, o Tribunal Supremo de Papua-Nova Guiné ordenou o fim da "detenção inconstitucional e ilegal dos requerentes de asilo ou dos transferidos no centro de realocação em Manus"; foi considerada uma ofensa "contra seus direitos e liberdades". Dutton, o ministro da imigração, respondeu imediatamente que ninguém em Manus "se instalará na Austrália".

A única mudança resultante da decisão é que os refugiados agora podem sair do campo durante o dia e tomar ônibus para Lorengau.

"Estamos em uma prisão maior", disse Abdirahman Ahmed, um refugiado somali. A milícia jihad Shabab matou seu pai e seu irmão em Mogadíscio. "Às vezes, acho que talvez, se eu morrer, será melhor. Se você morre, não há nenhuma pergunta para você, nenhum intérprete entre você e Deus, nenhuma imigração, nenhuma Austrália. Não somos seres humanos, somos apenas um cartaz: se você quiser vir para a Austrália, vai acabar em Manus com três anos de traumas e torturas."

Eles são mortos-vivos suspensos em uma terra de sonho, com os olhos fixos em ilhotas cintilantes. Os lábios de Abdul Aziz Muhamat estão tremendo. Ele é de Darfur, no Sudão, e se lembra de como as forças do governo sudanês amarraram os membros de um camponês a quatro cavalos, "e eles o destroçaram". Os soldados colocaram crianças em uma cabana cheia de combustível e a incendiaram. "Vejo isso como se tivesse sido ontem", diz ele.

Aziz diz estar em uma gaiola. A ilha inteira é uma gaiola. Depois diz estar em um buraco. Não tem sentimentos, nenhum desejo. Não adianta perguntar por quê. Já faz muito tempo. À primeira vista, as condições no centro de detenção são primitivas, centenas de homens amontoados em instalações improvisadas ou tendas, comida escassa, uma equipe de funcionários agressivos contratados pela Austrália, ameaças constantes de um pelotão especial da polícia de Papua, transportado para lá de avião às custas da Austrália – e nenhuma informação, nenhum "processo". Nada.

A Austrália confiou nas condições remotas e secretas do seu programa: o que os olhos não veem o coração não sente. Com a imprensa longe. Com a imposição de cláusulas draconianas de não divulgação dos fatos em contratos para todos os que trabalham lá. Até com a aprovação de uma lei federal que pode enviar delatores para a prisão. De modo geral, vem funcionando.

Apenas 24 milhões de pessoas vivem na Austrália, um país duas vezes maior do que a Índia, onde vivem 1,25 bilhão de habitantes. Poderia haver espaço para que coubessem mais 2.000? A Austrália não conhece uma recessão há um quarto de século. Talvez seja difícil imaginar o que são a humilhação e o desespero. Mas é hora de imaginar; eles estão logo ali, do outro lado do mar.

Outro fator é que o país insiste em que as cerca de 370 pessoas que foram transferidas de Manus ou Nauru para a Austrália como "transitórias", porque foram feridas em motins, ou agredidas sexualmente, ou porque estavam morrendo, ou grávidas ou destruídas (como a esposa do iraniano que se autoimolou), não podem ficar na Austrália.

Se quiserem ser consideradas para o acordo com os EUA, teriam de voltar a uma das ilhas para serem "processadas". As "pessoas transitórias" incluem cerca de 40 crianças.

Entre os refugiados está Nayser Ahmed, um Rohingya que fugiu da perseguição em Mianmar em 2 de julho de 2013. Agora com 63 anos, ele chegou à Indonésia com sua esposa e seis filhos. Mas, quando embarcaram no ônibus para ir ao barco, não pôde entrar no grupo.

Sua família chegou à Austrália antes da imposição da política de Manus e Nauru, e agora vive em Sidney. Ele não. Todos os esforços para se encontrar com a família, desde que chegou a Manus, em 15 de novembro de 2013, falharam.

O nariz e as costelas de Ahmed foram quebrados na rebelião de 2014. Uma filha dele se casou em Sidney há dois anos; ele lhe disse para ficar bem e não pensar muito. Ele se culpa por ter perdido o ônibus.

"Penso no que aconteceu o tempo todo", ele me disse. "Quando fecho os olhos, posso ver aquele ônibus saindo." Ele disse que "gritava sem parar: 'Minha família foi embora, alguém me ajude!'".

O que é obrigatório na Austrália é bem claro. Vencer Trump para que aceite o maior número possível de refugiados. Devolver Nayser Ahmed à sua família. Reconhecer que o país tem uma dívida moral com uma multidão de pessoas que vem maltratando nas ilhas e permitir àqueles que não forem para os Estados Unidos a construção de uma vida decente na Austrália.

Transformar as "pessoas transitórias" já na Austrália em residentes permanentes. Encerrar esse capítulo imundo que mancha a Austrália e ecoa os momentos mais obscuros da sua história.

Aziz estava lendo a biografia de Mandela. Um desses homens, se tiver uma chance, ainda pode fazer com que a Austrália se orgulhe.