Folha de S.Paulo

Agricultor francês processado por ajudar migrantes vira herói popular


O fazendeiro francês Cédric Herrou, 37, pode sair de seu próprio julgamento, que ocorre em fevereiro, como um herói popular.

Ele foi acusado pelo governo por ter ajudado refugiados a cruzar a fronteira, vindos da Itália. Mas, enquanto estava sentado no banco do réu, apontou um dedo de volta às autoridades dizendo que estava apenas cumprindo com seu dever. Ao contrário, disse, do Estado francês.

O veredito está previsto para o dia 10 e é improvável que Herrou, celebrado pela população local, seja detido. A promotoria pede oito meses de prisão, que podem em seguida ser suspensos pela corte.

Mas o julgamento tem sido visto como um debate fundamental sobre como a França trata os refugiados vindos de países em guerra ou extrema pobreza, como Síria, Iraque e Afeganistão.

O governo desmantelou sob protestos, em 2016, o campo de refugiados de Calais, na fronteira com o Reino Unido. Organizações humanitárias criticaram o trato aos migrantes, em especial a crianças desacompanhadas.

A defesa de Herrou, ouvida pela reportagem da Folha, argumenta que ele agiu em defesa dos valores da república francesa –as tão repetidas liberdade, igualdade e fraternidade da revolução.

"Se o que ele fez é ilegal, então precisamos mudar as leis", diz Zia Oloumi, advogado do caso. "Não podemos ter uma legislação que seja contra os valores humanos."

Herrou tem uma fazenda de oliveiras que se estica entre a França e a Itália.

Ele transportou dezenas de refugiados de Breil-sur-Roya, na fronteira francesa, até uma casa em Tourrettes-sur-Loup, de onde eles seguiram para Paris.

O gesto, que o fazendeiro diz ser político, é acompanhado de carga simbólica nessa região, por onde judeus puderam escapar da perseguição nazista na Segunda Guerra (1939-1945).

A situação é complicada pela ausência de uma fronteira demarcada. Migrantes por vezes passam de um país a outro sem se dar conta e, caso detidos, são expulsos.

"Eles chegam após uma longa caminhada e não sabem para onde ir, o que fazer. Não têm acesso a moradia", diz o advogado Oloumi.

Herrou hospeda e alimenta parte dos refugiados, razão pela qual já havia sido advertido pelas autoridades.

O fazendeiro acredita que, se deixados sozinhos, os migrantes correm riscos ao viajar pelo vale francês seguindo as linhas dos trens.

"Esse não é o trabalho para um fazendeiro, e sim para o governo. O problema é que não há resposta do Estado."

A questão, para a defesa de Herrou, é mais ampla do que a política francesa. O julgamento diz respeito também à própria União Europeia e a como esse bloco econômico lida com sua crise.

A Alemanha sozinha recebeu quase 900 mil refugiados em 2015 dentro da proposta de manter as portas abertas. Essa política causou considerável dano à popularidade da chanceler alemã, Angela Merkel, que concorre à reeleição em setembro.

"Herrou agiu como um cidadão europeu. Um europeu não se importa com as fronteiras internas", diz Oloumi.

"É importante dizermos ao mundo que nós temos valores e que os valores são mais importantes do que a lei."