Folha de S.Paulo

Após difamação por foto com Merkel, refugiado sírio processa Facebook


Anas Modamani, 19, aproximou-se da chanceler alemã, Angela Merkel, esticou o braço e fez um "selfie". Na internet, a foto gerou desdobramentos que o jovem refugiado sírio não esperava.

A imagem passou a circular como se Modamani fosse suspeito de atentados terroristas. Sua proximidade em relação à chanceler seria prova da ingenuidade alemã, que teria acolhido o inimigo.

Ele agora processa o Facebook por difamação e exige que o site retire as fotografias, impedindo a sua reaparição. Uma corte ouvirá a denúncia nesta segunda (6).

A ação pode ser um marco no país, enquanto o governo busca maneiras de regulamentar a internet e responsabilizar redes sociais pelas notícias falsas veiculadas.

ACUSAÇÕES

O "selfie" com Merkel foi feito em um abrigo de Berlim em 10 de setembro de 2015. Ele havia chegado à Alemanha um mês antes, fugindo da guerra e viajando por Turquia, Grécia e Sérvia.

A foto serviu, em um primeiro momento, como emblema da política alemã de portas abertas. O país recebeu quase 900 mil pessoas em 2015, em um gesto que mais tarde se provou daninho à popularidade de Merkel, candidata a um quarto mandato nas eleições de setembro deste ano.

"Foi uma foto normal, apenas por curiosidade", diz Modamani à Folha. "A chanceler é uma ótima pessoa que ajudou muitas pessoas, dando a elas a oportunidade de viverem. Mas a imagem começou a ser utilizada por quem odeia refugiados, dizendo que fiz coisas erradas."

Modamani foi identificado falsamente como Najim Laachraoui, um dos responsáveis pelos ataques terroristas a Bruxelas, em março do ano passado. Ele também foi acusado por internautas enfurecidos por uma tentativa de atentado em Ansbach, na Alemanha, em julho.

No fim do ano, a fotografia reapareceu em notícias sobre um morador de rua queimado em uma estação de metrô em Berlim. E também foi relacionada ao atentado com um terrorista que usou um caminhão para atropelar e matar 12 pessoas em um mercado de Natal na capital alemã.

Modamani acredita que o Facebook não tenha tomado medidas suficientes para impedir sua difamação. "Espero que apaguem a imagem imediatamente e impeçam outras notícias falsas", afirma o jovem, que trabalha numa rede de fast food.

Chan-jo Jun, advogado de Modamani, diz que as imagens relacionando seu cliente a ataques foram vistas dezenas de milhares de vezes. Ele foi alvo de ameaças —um usuário pedia, por exemplo, que fosse queimado vivo.

O Facebook eliminou algumas, mas outras não, e falhou em impedir sua reaparição, segundo o advogado. A empresa afirma ter agido e, portanto, não acredita haver base para a acusação.