Folha de S.Paulo

Alvo de piadas, Barron Trump se adapta à vida de filho do presidente


Se ser criança é difícil, ser filho do presidente dos Estados Unidos é ainda pior.

Pergunte a Chelsea, a filha do presidente Bill Clinton. Ou a Jenna e Barbara, as filhas gêmeas do presidente George W. Bush. E agora Barron, o filho mais novo do presidente Trump está enfrentando a mesma dificuldade.

Barron, 10, foi alvo de uma piada grosseira feita por uma redatora do programa humorístico "Saturday Night Live" no Twitter em 20 de janeiro, quando a família do novo presidente estava curtindo os eventos da posse.

Em Chicago, a humorista Shannon Noll interpretou o personagem título em "Barron Trump: Up Past Bedtime" (De Pé Depois da Hora de Dormir), em uma recente temporada em um teatro em Hyde Park.

Os dois casos reviveram questões já antigas sobre o tratamento muitas vezes áspero conferido aos filhos dos presidentes.

"Para mim, crianças não devem ser tema de piadas", disse Lisa Caputo, que era secretária de imprensa da Casa Branca quando o "Saturday Night Live" zombou de Chelsea Clinton, que na época tinha 13 anos. "Elas não foram eleitas para cargos públicos, elas não têm funções oficiais" no governo.

Mike Meyers, que integrava o elenco do programa na época, enviou uma carta pedindo desculpas aos Clinton depois do incidente.

Chelsea Clinton também foi alvo de zombaria, na adolescência, pelo apresentador de rádio Rush Limbaugh, que a chamou de feiosa.

Katie Rich, a redatora de "Saturday Night Live" que postou a piada sobre Barron Trump, foi suspensa do programa por prazo indefinido. Depois de apagar a mensagem e desativar sua conta no Twitter, ela reativou a conta e disse que queria pedir "desculpas sinceras" pelo tuíte "indelicado" e que se arrependia profundamente de suas ações.

"Foi imperdoável, e eu estou muito arrependida", afirmou Rich. Outros humoristas saíram em sua defesa, mas Noll disse ao jornal "Chicago Reader" que foi alvo de hostilidade na rede social, o que inclui ameaças de morte e comentários homofóbicos, transfóbicos, antissemitas e racistas. O teatro em que o espetáculo esteve em cartaz também sofreu ameaças.

Todos os presidentes e primeiras damas buscam uma vida distante dos holofotes para os filhos menores de idade que vivem na mansão presidencial de 132 aposentos, exceto quando eles mesmos decidem colocar os filhos em destaque.

Dias depois do incidente envolvendo Rich, a Casa Branca apelou por respeito à privacidade de Barron.

"A tradição duradoura, quanto aos filhos dos presidentes, é que eles recebam a oportunidade de crescer sem exposição aos holofotes da política", afirmou o Departamento de Imprensa da Casa Branca em um breve comunicado. "A Casa Branca espera firmemente que essa tradição continue".

Esta semana, Trump disse a Sean Hannity, apresentador do canal Fox News, que era "uma desgraça" que a emissora NBC atacasse "meu filho de 10 anos de idade". Trump também deu a entender que o incidente pode ter incomodado Barron, que só foi visto publicamente em momentos importantes do ano passado, como a noite do discurso de Trump na convenção do Partido Republicano e na noite da eleição. Ele continua a viver em Nova York, com sua mãe, a primeira-dama Melania Trump.

"Não é fácil para ele. Pode acreditar", disse Trump sobre seu filho.

Em contraste, os filhos adultos de Trump, Don Jr., Eric, Ivanka e Tiffany, estão compartilhando dos holofotes com seu famoso pai. Don Jr. e Eric estão no comando dos negócios da família, e Ivanka pode vir a ter um posto no governo. Os três participaram de reuniões políticas com Trump nas semanas que antecederam a posse.

Doug Wead, que escreveu um livro sobre os filhos dos presidentes, disse que "a maior ferida" acontece quando os filhos se tornam alvo da ira que adultos gostaria de dirigir ao presidente. Ele diz que as crianças se tornam alvos porque são vistas como fracas.

"Barron não tem como contra-atacar", disse Wead.

Anita McBride, que trabalhou para três presidentes republicanos e foi chefe de gabinete da antiga primeira-dama Laura Bush, disse que o presidente Barack Obama e sua mulher, Michelle, haviam feito um bom trabalho ao proteger as filhas do casal contra a maior parte do escrutínio público.

As filhas de Bush já estavam a caminho da universidade quando ele foi eleito em 2000, e com isso não chegaram a morar na Casa Branca. Mas incidentes em que foram apanhadas consumindo álcool antes da idade legal (21 anos, nos Estados Unidos) renderam manchetes.

"Por que 24 horas devem bastar para mudar a vida dessa criança?", disse McBride sobre Barron.

Chelsea Clinton declarou no Twitter que "Barron Trump merece a chance que toda criança tem –a de ser criança". Mas ela também disse que defender as crianças significa se opor às políticas de Trump que as prejudicam.

O tuíte de Chelsea Clinton –que é amiga da filha de Trump, Ivanka– em apoio ao filho do presidente revela alguma coisa sobre o exclusivo clube dos filhos de presidentes, que parecem sempre tentar proteger uns aos outros.

Jenna e Barbara Bush recentemente elogiaram Malia e Sasha Obama por sobreviver "à pressão inacreditável" da Casa Branca e suportar "fortes críticas aos seus pais da parte de pessoas que não os conhecem".

"Aproveitem tudo que viram, as pessoas que conheceram, as lições que aprenderam, e que isso as ajude a promover mudanças positivas. Não temos dúvidas de que isso acontecerá", disseram as irmãs Bush às filhas de Obama em uma carta.

As irmãs Bush também escreveram uma carta às filhas de Obama quando elas se mudaram para a Casa Branca, aos sete e dez anos de idade, em 2009.

Wead diz que não há necessidade de grande tristeza quanto ao tratamento às vezes áspero que essas crianças recebem do público.

Como filhas de pessoas privilegiadas, elas têm grandes vantagens sobre muitos de seus colegas.

"Duas delas se tornaram presidentes", disse Wead, em referência a George W. Bush, filho de George H. W. Bush, e a John Quincy Adams, filho do presidente John Adams.

Tradução de PAULO MIGLIACCI