Folha de S.Paulo

'Se vencer em plebiscito, Erdogan se tornará um sultão', diz jornalista turco


Exilado na Alemanha, o jornalista e escritor turco Can Dündar, 55, está na linha de frente da oposição ao presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdoan. Editor-chefe do jornal "Cumhuriyet", Dündar bancou a publicação de uma reportagem, em 2015, que denunciava uma operação secreta de envio de armas à Síria por forças do governo. Pagou caro. Foi preso, sofreu um atentado e hoje vive no exílio, em Berlim.

Na capital alemã, Dündar comanda o jornal digital "Özgürüz" ("Nós estamos livres"), bloqueado pelo governo turco. Bilíngue, o site visa também a comunidade turca na Alemanha –cerca de 3 milhões de pessoas. Na Turquia, em torno de 150 jornalistas estão detidos e mais de 160 meios de comunicação foram fechados desde a tentativa de golpe no ano passado.

É neste cenário que o país vai às urnas nesse domingo (16) para decidir, num plebiscito, se apoia reformas na Constituição que darão ainda mais poderes ao presidente. Em Berlim, eventos com a presença de Dündar têm a segurança reforçada. Mas ele dispensa guarda-costas. Sua única precaução é fechar as cortinas da sala onde trabalha, numa redação instalada no centro de Berlim, onde concedeu esta entrevista para a RFI:

RFI – A Turquia vai às urnas neste domingo para decidir, num plebiscito, sobre reformas na Constituição. O que pode mudar se houver uma vitória do "sim"?

Can Dündar – Se o "sim" vencer, Erdogan se tornará uma espécie de sultão para a nova Turquia. E vai ser bem difícil conseguir pará-lo. Ele vai ter autoridade para comandar as Forças Armadas, as forças policiais, para dissolver o Parlamento, e o que é mais importante: vai controlar o Judiciário. Isso quer dizer que as forças mais importantes estarão nas suas mãos, sem nenhum mecanismo de controle, numa espécie de ditadura.

Se o "não" sair vitorioso, o senhor acredita que Erdogan vai aceitá-lo?

Ele vai ter que aceitar. Essa será a vontade do povo, e ele não pode resistir, é claro. Mas não estou certo de qual será a reação dele se este "não" não for forte o bastante. Se for numa proporção meio a meio, como parece no momento, de acordo com as pesquisas de opinião, para ele será bem difícil de engolir.

O senhor acha que o resultado do plebiscito será justo, com todas as restrições que se viu durante a campanha?

Não foi uma campanha justa, porque os eleitores do "não" estavam sob pressão. Havia muitas limitações, e estavam sob ameaças. E mesmo líderes de partidos curdos, parlamentares, estão na cadeia. As reuniões estavam banidas, a campanha do "não", censurada.

Foi realmente uma campanha bem dura para os apoiadores do "não". Mas mesmo sob essas circunstâncias, se está meio a meio, é muito importante que as pessoas sejam corajosas o suficiente para apoiar o "não".

O senhor acredita que a Europa deveria adotar uma postura mais rigorosa em relação a Erdogan neste momento, ou seria pior, porque poderia levar a Turquia a uma divisão mais profunda e a uma separação maior da Europa?

Infelizmente, a Europa deu uma péssima lição para gente, porque o apoiou, em função do acordo de refugiados, ao invés de criticá-lo por suas políticas antidemocráticas. Esperava outra coisa de um país como a França, por exemplo, que costumava apoiar a democracia e o secularismo no mundo. Mas eles não mencionaram nada sobre o governo turco. O secularismo está em perigo, a liberdade de expressão será perdida. Não sei por que silenciam sobre isto. Não espero nada dos governos europeus. Estou profundamente decepcionado.

Ministros turcos, e o próprio Erdogan, provocaram a chanceler alemã, Angela Merkel, e políticos alemães, acusando-os de "práticas nazistas" pela resistência em permitir comícios de políticos turcos na Alemanha. Acha que essas acusações conseguiram dividir a comunidade turca por aqui?

Sim. Foi uma espécie de tática de campanha que funcionou muito bem. Ele tentou mobilizar seus seguidores na Alemanha, na Holanda, na Europa, e colocou a questão de muçulmanos contra cristãos, e cristãos contra muçulmanos. Esse tipo de polarização ajudou-o bastante nos últimos dez anos, e de novo nessas eleições. E funcionou na Alemanha. Muita gente se mobilizou para apoiá-lo. Agora eles têm o problema da polarização, como nós temos na Turquia.

O jornalista turco-alemão Deniz Yücel continua detido na Turquia. Isso seria mais uma provocação contra a Alemanha? Como está a situação da imprensa por lá?

Sim, infelizmente ele está preso. O problema é que o governo turco entende cada crítica como um insulto, chama os jornalistas de espiões, e tem transformado jornalistas, como eu e Deniz, em reféns. Não vai ser tão fácil tirar Deniz de lá, enquanto essa tensão prosseguir. E lembre que ele não está sozinho. Está com outros 150 jornalistas da Turquia, que não fizeram nada, além de divulgar notícias, escrever artigos. Esse não é um problema só do Deniz, é um problema da liberdade de imprensa na Turquia. Temos que lutar contra todos os tipos de proibições, censuras e detenções, para salvar Deniz e os demais.

No seu livro, "We are arrested" ("Nós estamos presos"), o senhor descreve como foi difícil a decisão de publicar as denúncias sobre a entrega ilegal de um carregamento de armas pelo serviço secreto turco, supostamente para rebeldes na Síria. O senhor saberia dizer para quem essas armas seriam entregues?

Infelizmente, não sabemos para onde as armas estavam indo. Não tivemos chance de seguir seu rastro. Mas o governo não negou. Eles disseram que o armamento estava indo para os turcomanos (sírios de origem turca). Mas falamos com os comandantes das forças turcomanas lá, e eles negaram ter recebido armas da Turquia. Essa era a área onde os radicais islâmicos estavam baseados, suponho que estivessem indo para eles. Recebi uma chamada de colegas franceses, que querem seguir a história. Decidimos rastrear esse caminho juntos. Espero que a gente descubra o destino final dessas armas.

O senhor criou um site de notícias também para conscientizar a opinião pública. Mas soubemos que ele foi bloqueado na Turquia. Isso é verdade?

Sim. Nosso site foi bloqueado antes mesmo de ser lançado. É histórico que o governo bloqueie um site que ainda nem existe. Mas se você mora na Turquia, sabe como ultrapassar essas barreiras. Então, é possível ler o site e nos alcançar, mesmo com essa censura.

O senhor escapou de um atentado na Turquia. Na ocasião, sua mulher o ajudou a ficar em segurança. Como ela está agora?

Sim, minha mulher salvou a minha vida. Infelizmente, quando ela quis sair da Turquia para me encontrar na Alemanha, eles apreenderam o passaporte dela e o confiscaram sem motivo. Ela não pode deixar o país. Não nos vemos há oito meses. Eu já era jornalista durante o golpe militar. Mas mesmo sob a junta militar, nunca tocaram nas famílias. É a primeira vez que vemos isto. Este governo está tentando punir as famílias, ao invés de nos punir. De certa forma, ela está sendo mantida refém deste governo.

O senhor acredita que houve realmente algum tipo de envolvimento do movimento do clérigo Fethullah Gülen por trás da tentativa de golpe, como afirma Erdogan?

Não sei. Mantenho distância em relação a eles. Eles eram bem unidos, e estavam governando o país. Fizeram coisas terríveis para nós durante essa aliança. Agora, estão separados, e Erdogan diz que eles estão por trás da tentativa de golpe. Não tenho certeza. Por outro lado, não há outra força que possa ousar fazer isso. Mas agora está na Corte. E os juízes terão que decidir. Não seria justo acusá-los até lá.

O senhor se sente seguro na Alemanha? Tem guarda-costas, toma precauções especiais?

Não tenho guarda-costas. Se faço alguma coisa em público, a polícia está lá para fazer a segurança do evento. Mas não especialmente para mim. Jornalismo não é um trabalho seguro na Turquia, nem em nenhum lugar, se você se opõe ao governo. E se você está ameaçado, qualquer lugar será perigoso para você. Na Alemanha, duplamente, porque existe uma imensa população turca aqui. Alguns, bem fanáticos. Nenhum lugar é seguro se você tem um governo fascista, e se está confrontando o governo em nome da democracia e dos direitos humanos.