Folha de S.Paulo

Senado convoca ex-diretor do FBI; cresce pressão sobre saída de Trump


Em meio a intenso debate nos meios políticos e na mídia sobre a possibilidade de instalação de um processo de impeachment contra o presidente dos EUA, Donald Trump, o Comitê de Inteligência do Senado enviou nesta quarta-feira (17) uma carta ao ex-diretor do FBI James Comey para que ele vá ao Congresso prestar esclarecimentos.

O comitê pediu ao FBI que envie anotações ou memorandos de Comey relativos a conversas com funcionários da Casa Branca ou do Departamento de Justiça envolvendo as relações de assessores do presidente com representantes do governo russo.

Na terça (16), o jornal "The New York Times" publicou reportagem sobre um suposto pedido de Trump, durante conversa com Comey, para que o então diretor deixasse de lado as investigações acerca dos contatos do ex-conselheiro de Segurança Michael Flynn com funcionários russos na campanha eleitoral.

Na semana passada, Trump demitiu Comey, numa decisão intempestiva, vista como uma possível investida para interferir no inquérito, que potencialmente pode atingir o próprio presidente.

Caso confirme-se o pedido de Trump a Comey, que o ex-diretor teria registrado por escrito, haveria a possibilidade de a oposição caracterizar uma tentativa de obstrução da Justiça pela Casa Branca.

"O memorando de Comey marca uma escalada decisiva da crise constitucional americana", disse à Folha o constitucionalista Bruce Ackerman, da Universidade Yale.

O professor de direito e ciência política considera ser preciso aprofundar as investigações, mas afirma que um "um pedido de Trump para encerrar a investigação do FBI sobre o envolvimento de sua campanha com os russos equivaleria precisamente ao 'alto crime ou delito', previsto na Constituição, que se caracterizou no Watergate".

Em 1998, Ackerman, que hoje tem 73 anos, foi testemunha de Bill Clinton no frustrado processo de impeachment contra o então presidente democrata (1993-2001).

Além de uma tipificação jurídica clara, o impeachment só avançará com apoio político expressivo, o que requer adesão de parte significativa do Partido Republicano, majoritário na Câmara e no Senado. Esse fator é decisivo.

Ainda que por ora a maioria republicana mantenha-se cautelosa, alguns parlamentares admitem que a situação pode desaguar num pedido de afastamento.

O deputado Justin Amash, de Michigan, por exemplo, disse nesta quarta (17) que um processo dessa natureza seria adequado se a conversa de Trump com Comey for confirmada. "Mas todos têm direito a um julgamento justo neste país", ressaltou.

Na véspera, seu correligionário Carlos Curbelo declarara à CNN que a tentativa de obstrução, se comprovada, seria motivo comparável ao que justificou a abertura do impeachment contra Richard Nixon (1969-1974) e Clinton.

PERSEGUIDO
Trump está longe de ser unanimidade no Partido Republicano, que ele tomou de assalto nas primárias, deslocando lideranças e atropelando interesses consolidados.

Não é uma hipótese fantasiosa que parte dos republicanos, sob pressão de doadores e caciques, desembarque do apoio ao presidente.

"Estamos vivendo uma situação bastante grave, que poderá dominar a política americana durante anos", disse Ackerman à Folha.

A Casa Branca negou que que durante a conversa com Comey Trump tenha pressionado o ex-diretor a deixar de lado o inquérito sobre Flynn.

Vendo sua credibilidade se esvair, Trump apresentou-se nesta quarta como vítima, durante a cerimônia de formatura da Academia da Guarda Costeira em Connecticut. No discurso, disse que "nenhum político na história" foi tão maltratado e injustiçado pela mídia quanto ele.

A imprensa de tendência progressista (representada por jornais como "New York Times", "Washington Post" e outros), tem feito oposição sistemática a Trump -que cometeu o erro estratégico de alimentar uma renhida guerra retórica contra jornalistas e meios de comunicação em sua campanha e de não interrompê-la depois de eleito.

Trump insiste desde o ano passado em tratar a imprensa que o critica ou publica reportagens contrárias a seus interesses como "fake news"(notícias falsas). A resposta tem aparecido sob a forma de exaustivas apurações sobre seu governo e suas atividades como empresário.

Donald Trump tem colecionado ações questionáveis desde o início de seu mandato na Casa Branca, em janeiro

Suspeita de intervenção russa na eleição

Agências de inteligência dos EUA acreditam que o líder russo Vladimir Putin tenha ordenado que hackers penetrassem nos sistemas do Comitê Nacional Democrata e distribuíssem notícias falsas; Putin nega

O ex-chefe da campanha de Trump, o lobista Paul Manafort, trabalhou secretamente para um empresário russo há dez anos para promover Putin

Ex-conselheiro de Segurança Nacional, renunciou depois de a imprensa revelar que ele mentiu ao vice-presidente Pence sobre os contatos que manteve com o embaixador russo nos EUA

Flynn também é suspeito de ter recebido pagamentos dos governos russo e turco por lobby; por ser um ex-integrante do Exército, a lei impede que Flynn aceite pagamentos de estrangeiros

O ex-diretor do FBI liderava investigação sobre o elo entre auxiliares de Trump com a Rússia; dias antes de ser demitido, ele havia pedido mais recursos para a apuração

Ele foi demitido por Trump no último dia 9; a Casa Branca afirmou que o presidente seguiu recomendação do secretário e do vice-secretário da Justiça

Dois dias depois, o "New York Times" afirmou que, em um jantar em janeiro, Trump pediu a "lealdade" de Comey, que respondeu prometendo "honestidade"

Na terça (16), o "NYT" revelou que Trump pediu a Comey, em fevereiro, que encerrasse a investigação sobre Flynn; o registro do pedido estaria em um memorando escrito por Comey

Também nesta semana, o "Washington Post" informou que Trump teria revelado informação confidencial ao chanceler russo, Sergei Lavrov, em uma conversa na semana passada, na Casa Branca

A informação sobre uma ameaça do Estado Islâmico teria sido repassada sem a permissão da fonte (Israel, segundo o "NYT"), e poderia comprometer a segurança de um colaborador dos EUA na região

Trump reagiu dizendo que tem o "direito absoluto" de compartilhar informações com a Rússia; a Casa Branca alegou que os dados não eram secretos

O presidente Putin disse nesta quarta (17) que poderia fornecer a transcrição da conversa entre Trump e Lavrov se os EUA autorizarem