Folha de S.Paulo

Capoeira resgata crianças-soldados congolesas


Djoking tinha 14 anos quando as Forças Democráticas Aliadas (ADF, pela sigla em inglês) o levaram de Kisangani, na República Democrática do Congo, com outras 34 crianças na noite de 25 de dezembro de 2014.

"Eu não sabia que meu trabalho seria matar pessoas", relembra hoje, aos 17.

O garoto foi levado por cerca de 800 km do coração da floresta do Congo até os campos de treinamento perto da fronteira de Uganda para ser soldado da ADF. Com duas décadas, a milícia islâmica é uma das mais de 70 facções atuantes em Kivu do Norte. Tem cerca de 1.400 integrantes e é acusada de laços com redes terroristas como Al Qaeda e o somali Al Shabbab.

O uso de crianças-soldados é comum entre as milícias do Congo. Em 2014, a ADF foi citada pela ONU por violar direitos humanos, inclusive de mulheres e crianças, ao mutilar, decapitar e sequestrar dezenas de pessoas, aterrorizando vilas inteiras.

"Foram 11 dias viajando dentro de um container. Não podíamos chorar nem mostrar que tínhamos medo", diz Djoking. "Comíamos inhame cru e um pouco de carne escondidos. Nos treinaram para usar armas, machetes e martelos. Nos levavam para matar pessoas inocentes."

O dia na floresta era de combates contra o Exército congolês e os capacetes-azuis da ONU. Ele também tinha que cortar madeira e contrabandeá-la na fronteira. A retirada de libuyu, espécie tropical de alto valor, é uma das fontes de recursos do grupo.

Foi um ano inteiro na floresta até que, em janeiro de 2016, Djoking foi enviado para uma importante missão: ser espião em Goma, capital de Kivu do Norte e sede da missão de paz da ONU no país. Era o momento para fugir.
Capoeira

Ao buscar ajuda da polícia, Djoking foi encaminhado ao programa da ONU de desarmamento, desmobilização e reintegração de ex-combatentes. Como ainda era menor de idade, o Unicef (fundo da ONU para infância e adolescência) e organizações locais o acolheram.

Há um ano e meio o adolescente vive no centro de transição e orientação Cajed, no subúrbio de Goma. O abrigo recebe garotos recém-saídos de milícias armadas e ajuda a ressocializá-los.

Lá, Djoking descobriu o programa Capoeira pela Paz, iniciativa do Unicef com apoio da Embaixada do Brasil em Kinshasa pelo qual já passaram 4.000 crianças.

Há quase três anos o projeto, coordenado pelo capoeirista brasileiro Flávio Saudade e os congoleses Ninja e Karibu, ensina os meninos que viveram traumas a jogar a capoeira brasileira.

Duas vezes na semana, eles aprendem a tocar percussão, a gingar em roda e a cantarolar em português.

Djoking teve que se adaptar à nova realidade. No início, só falava lingala, depois aprendeu swahili para comunicar-se. "Aqui é uma família para mim. Tenho aulas de inglês, jogo futebol e também faço capoeira", conta.

"A capoeira diminui a agressividade dos meninos, muitos eram de grupos rivais", diz Catherine Molebo, responsável pela documentação e pelo acompanhamento psicossocial das crianças.
"É a única atividade que realmente funciona e une a todos. Jogam juntos e desenvolvem o amor e a tolerância."

Aos poucos, os mais tímidos como Djoking, abrem-se e começam a fazer amigos. "Eles precisam saber que não são rejeitados. É muito triste vê-los quando saem dos grupos armados. Depois de meses na floresta, chegam sujos e desesperados. Aqui ensinamos o amor, a fraternidade e a convivência pacífica. São crianças que necessitam de afeto", afirma Molebo.

Antes de aprender capoeira, "sempre vinham na minha mente os momentos que passei na floresta lutando", relembra o rapaz. Hoje esse capítulo traumático da sua vida já não o aterroriza.

As crianças participam das atividades de forma voluntária -todas vêm para a aula de capoeira, diz Saudade.

"Vemos que ela traz felicidade para essas crianças que redescobrem o próprio corpo, sua autonomia e retomam o laço afetivo. Elas se tornam ainda mais fortes diante das dificuldades", diz o mestre.
O Unicef trabalha para criar indicadores e, assim, tornar a capoeira um modelo de ressociabilização a ser utilizado em áreas de conflito.

"Espero que as crianças sejam felizes e se tornem adultos capazes de lutar por seus sonhos", diz o capoeirista.

Djoking não sabe quanto tempo poderá ficar no centro de transição. Espera, em breve, ser acolhido por uma família. Sem notícias da mãe, dos irmãos ou dos tios, ele cresceu com o pai, um soldado do Exército congolês. Mas após a sua morte, o menino foi morar nas ruas.

Desde que Djoking chegou ao Cajed, a equipe de assistentes sociais tenta localizar sua mãe, que estaria vivendo em uma cidade 600 km ao norte de Kisangani.
"Se eu puder, queria ver minha mãe, nem lembro o rosto dela. Espero encontrar uma família que me acolha. Se eu, puder, queria voltar à escola", diz Djoking, que só cursou os dois primeiros anos do ensino fundamental. "Gostaria de ajudar o meu país a ter paz."