Folha de S.Paulo

Nobel não elimina bombas, mas estimula mobilização social


O lado mais luminoso do Nobel da Paz para a Campanha Internacional para Abolir Armas Nucleares é o fato de ter sido concedido não a um indivíduo mas a um ator coletivo –a sociedade civil organizada– que tende a se tornar cada vez mais atuante e mais importante em um mundo em que os governos e os seus líderes estão quase universalmente com o prestígio em declínio.

É claro que a campanha em si merece elogios e apoio. Se armas comuns já provocam infernal sangria, armas nucleares são o elemento mais próximo possível ao apocalipse que os seres humanos inventaram.

Mas o mais elementar sentido comum obriga a reconhecer que tem razão Carl Bildt, o ex-premiê sueco, ao dizer, em artigo para o "Project Syndicate", que "ninguém com alguma conexão com a realidade acreditaria seriamente que os governos da China, Israel, Paquistão e Rússia simplesmente abandonarão suas armas nucleares porque a opinião pública voltou-se contra eles".

Bildt poderia ter acrescentado que todas as nove potências nucleares do mundo boicotaram o Tratado de Proibição de Armas Nucleares, assinado em julho nas Nações Unidas e que é o grande estandarte da Campanha agora premiada com o Nobel.

Realismo à parte, importa que a Campanha conseguiu envolver 468 organizações da sociedade civil, espalhadas por 101 países. Essa mobilização é, em grande medida, responsável pelo tratado, apoiado por 122 países, assinado por 53 (Brasil inclusive) e já ratificado por três.

Ou, posto de outra forma: pode não conseguir eliminar as armas nucleares dos países que já as possuem mas funciona como forte elemento de dissuasão para que os demais as busquem –elemento fortalecido simbolicamente pelo Nobel.

O prêmio, aliás, vem em um momento em que armas nucleares são o foco de duas crises, uma já aberta e outra potencial. Há a busca da Coreia do Norte pelas armas atômicas e a ameaça dos Estados Unidos de Trump de atacar o país para evitar que chegue a elas.

E há a outra ameaça americana, a de romper o acordo com o Irã em torno de seu programa nuclear, "o que poderia desencadear um segundo impasse nuclear em meio à crise da Coreia do Norte", como escrevem para o "Guardian" Saeed Kamali Dehghan e Jon Henley.

Difícil saber se o Nobel deste ano fará com que Irã, Coreia do Norte e Donald Trump moderem suas posições, mas está dado o sinal de que a sociedade civil está mobilizada e ativa em "seu trabalho de atrair a atenção para as consequências humanitárias catastróficas do uso de qualquer arma nuclear", como disse Berit Reiss-Andersen, que lidera o comitê do Nobel, ao explicar a premiação. Já é um passo.