Folha de S.Paulo

Bana al Abed: de uma zona de guerra na Síria a Nova York


Sob ataques aéreos constantes em Aleppo enquanto o governo sírio arrancava a cidade do controle de forças rebeldes, Bana al Abed e sua mãe, Fatemah, escreviam diariamente no Twitter sobre a vida na cidade cercada.

"Bom dia de Aleppo", disse Bana, falando inglês com dificuldade, em um dos vídeos postados em sua conta em outubro. "Ainda estamos vivas."

Hoje, menos de um ano mais tarde, sua vida e a de sua mãe deixaram de ser ditadas pelos ataques aéreos e a incerteza, graças em parte à atenção internacional conquistada pela menina e sua conta no Twitter.

Hoje vivendo na Turquia, a um mundo de distância de sua vida na zona de guerra, Bana, 8 anos, e sua mãe escreveram um livro em que relatam suas experiências.

Esta semana a menina visitou Nova York, onde teve um encontro com funcionários do Twitter, conversou com crianças de uma escola no Harlem e conheceu Colin Kaepernick, o jogador de futebol americano cujos protestos contra a brutalidade policial e a opressão racial, na temporada passada, desencadearam uma discussão nacional.

Com seus cabelos compridos, olhos castanhos escuros e dentes da frente faltando, Bana rapidamente atraiu milhares de seguidores quando primeiro começou a tuitar, no outono do ano passado, e virou símbolo do sofrimento vivido pelas crianças sírias.

Como milhares de outras famílias em Aleppo, a família de Bana teve dificuldade para sobreviver durante o cerco. Primeiro faltaram água e alimentos; mais tarde, a família perdeu sua casa em um ataque aéreo.

Finalmente a família se juntou a milhares de outros moradores de Aleppo que partiram da cidade em ônibus em dezembro, deixando a Síria rumo à Turquia.

"Os últimos dias foram horríveis", falou Fatemah Abed numa manhã recente em Nova York, entrevistada com sua filha a seu lado. "Em novembro e dezembro, foi um inferno."

As duas agora parecem estar bem. O rosto de Bana parecia mais redondo, e ela já tinha os dentes da frente. Estava falando inglês com facilidade e tinha nas mãos uma boneca American Girl, uma lembrança de sua visita à cidade.

"Ela é meu bebê", disse Bana, acariciando os cabelos loiros da boneca, que batizara de Christine em homenagem à editora de seu livro, "Dear World" ("Querido Mundo"), frase tirada de seus tuítes.

Bana e sua mãe ainda usam a conta @AlabedBana, que hoje tem mais de 363 mil seguidores, para postar mensagens pessoais e comentários sobre acontecimentos recentes.

Bana estava descontraída e autoconfiante, demonstrando um autocontrole incomum para alguém de sua idade. Seus cabelos castanhos compridos desciam por suas costas, e ela tagarelava alegremente, falando que tinha conhecido a Estátua da Liberdade, o Central Park e arranha-céus.

Ela cantou alguns versos de uma canção de Justin Bieber e falou de sua nova escola na Turquia. Sua matéria favorita é matemática, e ela quer ser professora de inglês quando crescer.

Quando falou de Aleppo, porém, ficou séria e escolheu as palavras com cuidado.

"Foi muito difícil", ela disse, lembrando como sua casa foi destruída em um bombardeio. "E minha amiga, sabe, o pai e o irmão dela morreram."

Quando sua conta no Twitter foi aberta, em setembro de 2016, milhares de pessoas enviaram mensagens de apoio a Bana. Mas também houve quem a criticasse.

Mesmo depois de comprovada a veracidade de muitos de seus vídeos e fotos e de outros moradores terem corroborado sua história, algumas pessoas duvidavam que a família sequer estivesse em Aleppo, argumentando que seria impossível ela se conectar à internet ou que a família estaria distribuindo "notícias falsas".

Outros sugeriram que Bana estivesse sendo utilizada como instrumento de propaganda política, ou por seus pais ou para defender a agenda rebelde.

Jornalistas ocidentais não tinham acesso a Aleppo havia meses, e, embora a conta no Twitter oferecesse uma visão especial da cidade, muitos dos detalhes informados eram impossíveis de confirmar.

Em Nova York, porém, Fatemah Abed defendeu sua decisão de abrir a conta para sua filha e disse que Bana se envolveu profundamente desde o início.

"Decidimos ir ao Twitter para ter acesso direto ao mundo", disse Fatemah, explicando que queria promover a consciência pública do sofrimento que enfrentavam na Síria.

"Como mãe, sei que todos os pais sabem o que sua família precisa", ela prosseguiu. "Quando não há nada, nem água nem comida, é preciso tomar uma atitude."

Fatemah acredita também que as mensagens de apoio recebidas de desconhecidos ajudaram a elevar os ânimos dela e de sua filha. "Sentíamos que o mundo estava conosco. Que não estávamos sozinhas", ela explicou.

Ela se recordou de ter dificuldade para alimentar seus filhos no ano passado. Bana contou que sentia fome o tempo todo. "Só havia macarrão e arroz. A gente comia isso todo dia, e eu odiava. Não queria mais comer isso", ela contou.

Quando a família finalmente deixou a cidade, juntou-se a milhares de outras pessoas em ônibus verdes que as levariam ao campo, como parte do cessar-fogo. Um trajeto que normalmente levaria uma hora para cobrir acabou levando 19 horas. Elas passaram fome e frio.

Abed se lembra do mau cheiro no ônibus, devido às crianças que não podiam sair para ir ao banheiro. Bana se recorda do barulho.

"Todos os bebês choravam", ela contou. "Eu não podia dormir. Estava com muita fome e sede."

Quando eles chegaram, Bana e seus dois irmãos menores ficaram felicíssimos ao ver comida. "Vimos muitas frutas, muita comida", ela disse. "Comemos tanto que vomitamos."

No campo, fora da cidade, ativistas locais aguardavam pelo ônibus. Bana contou que muita gente a conhecia devido à conta no Twitter.

Graças à sua fama, a família pôde se assentar na Turquia, com apoio do governo turco, participar de esforços em prol dos refugiados e, mais tarde, escrever o livro.

Mas Bana disse que ficou surpresa com a acolhida que teve. "As pessoas tiravam fotos", ela contou. "Porque muita gente me conhecia, queriam me fotografar e entrevistar. Fiquei tipo famosa."