Folha de S.Paulo

Perfil de secretário e briga com Trump deterioram Departamento de Estado


A sugestão feita publicamente pelo presidente Donald Trump de que ele e o secretário de Estado, Rex Tillerson, fizessem testes de Q.I. e comparassem seus resultados é o mais recente e emblemático capítulo na degradação da relação entre os dois, que contribui para ameaçar ainda mais um já combalido Departamento de Estado.

"Posso dizer a vocês quem venceria", completou Trump, numa declaração à "Forbes" que depois a Casa Branca chamou de piada. A alfinetada, porém, era uma resposta à declaração nunca desmentida por Tillerson de que o presidente seria "um idiota".

Gente de dentro do departamento e quem acompanha a política externa americana além dos corredores da sede em Washington concordam que a dúvida hoje é quando Tillerson deixará o cargo, e não mais se isso vai ocorrer.

A mesma reportagem da NBC News que revelou no começo do mês a declaração do secretário também afirmou que o vice-presidente, Mike Pence, teve de intervir , em julho, para que Tillerson não apresentasse sua renúncia.

Após rara convocação de jornalistas, o secretário negou que tivesse considerado deixar o posto.

"É bem difícil imaginar que Tillerson permaneça no governo Trump depois de 2017. Acho inevitável que ele renuncie", aposta Stewart Patrick, diretor do Programa de Governança Global do Council on Foreign Relations, que prestou assessoria ao Departamento de Estado por três anos durante o governo de George W. Bush.

Tillerson, que chegou ao cargo com as credenciais de presidente-executivo de uma gigante petroleira , parece nunca ter se ajustado ao posto. Em parte porque Trump não facilita seu trabalho com provocações e declarações.

Em entrevista ao "New York Times", Tillerson reconheceu que as estratégias da política externa americana hoje têm de ser "suficientemente resilientes" para acomodar as novidades disparadas on-line por Trump.

"Quando acordo, há um tuíte do presidente. Então penso: 'OK, essa é uma nova condição'. Como usá-la?", disse. "Acontece, algumas vezes, de eu não estar esperando."

O próprio desempenho de Tillerson, contudo, também tem gerado descontentamento dentro e fora do departamento. Para especialistas, sua atuação no cenário internacional é invisível diante do fenômeno Trump.

Internamente, nove meses depois do início do governo, apenas 2 dos 9 mais altos postos do departamento —de vice-secretários e subsecretários— foram ocupados.

No escalão imediatamente abaixo, dois terços (70 dos 105) dos postos de secretários-assistentes, representantes e enviados especiais ainda estão vagos ou ocupados por interinos. É esse o caso do posto de secretário assistente para o Hemisfério Ocidental, que responde pela América Latina.

"O resultado disso é uma submissão da liderança diplomática americana e um vácuo que contribui para a crescente incerteza sobre as intenções e os compromissos dos EUA em um momento de grande turbulência global", afirma Patrick.

Em seu gabinete, Tillerson centralizou até mesmo as decisões mais triviais e exigiu que tudo passasse pelos assessores que trouxe com ele, os advogados Margaret Peterlin e Brian Hook.

Uma pesquisa encomendada a uma consultoria pelo próprio departamento em julho mostrou que milhares de funcionários se dizem preocupados com o futuro da diplomacia americana e reclamam da falta de apoio do governo e de Tillerson, revelou o "Wall Street Journal".

Diplomatas consultados pela reportagem confirmam o clima de desânimo e incerteza, reforçado pelos planos pouco claros do secretário para uma restruturação do Departamento de Estado.

O moral dos funcionários já estava baixo desde que Trump previu, em fevereiro, uma redução de 31% no orçamento da pasta. Tillerson, segundo o "New York Times", quer reduzir 8% do quadro, cerca de 2.000 funcionários.

Para Patrick, ir à sede do departamento hoje é "como entrar num navio naufragando, cuja tripulação não sabe se alguém virá em socorro".