Folha de S.Paulo

Desinformação estimulou avanço do vício em opioides nos EUA


Há indícios significativos de que o aumento do vício em opioides nos EUA só foi possível graças à relação incestuosa entre indústria farmacêutica, periódicos médicos especializados, agências reguladoras e parte da classe médica americana.

A desinformação deliberadamente propagada a respeito dos opioides provavelmente estimulou o uso indiscriminado e o avanço da dependência.

Uma reportagem recente da "New Yorker" mostra em detalhes como isso se deu no caso do OxyContin, cujo princípio ativo é a oxicodona. A droga foi aprovada para comercialização pela FDA (agência reguladora) em 1995 e, em sua formulação atual, foi desenvolvida pela Purdue Pharma, empresa que pertencia a um trio de irmãos nova-iorquinos, todos médicos: Arthur, Mortimer e Raymond Sackler.

Há evidências de que, ao longo de décadas, os irmãos Sackler coordenaram os aspectos publicitários e comerciais de suas operações, publicando artigos com suposto teor científico sobre o bom desempenho de seus produtos em periódicos especializados, ao lado de anúncios convencionais.

No caso específico do OxyContin, a empresa identificou, em entrevistas com médicos, que uma barreira significativa para a comercialização seria o temor de viciar os pacientes.

Embora a droga fosse mais potente do que outros opioides já disponíveis, a Purdue Pharma conseguiu convencer a FDA a anunciar que a droga seria mais segura que medicamentos concorrentes, porque contava com um mecanismo de liberação lenta do princípio ativo no sangue.

Coincidentemente, o responsável por analisar o processo de aprovação do medicamento na agência, Curtis Wright, deixou a FDA logo depois da liberação e, dois anos depois, tornou-se empregado da Purdue.

Número de mortes por overdose de drogas nos EUA - Por 100 mil habitantes (por etnia)

AS DROGAS QUE MAIS MATARAM EM 2016** -

A empresa também passou a financiar a ida de médicos a convenções, pagando especialistas para que realizassem palestras sobre os bons efeitos do opioide.

Ao mesmo tempo, obteve dados que indicavam um risco relativamente alto de dependência entre usuários do princípio ativo (na faixa dos 13%) e a probabilidade de perda do efeito analgésico após apenas oito horas de uso. Nenhuma das informações foi repassada aos médicos com os quais os representantes comerciais da empresa tinham contato.

Esse modelo acabou se tornando clássico: a prevalência do chamado "ghostwriting" –ou seja, artigos científicos sobre a suposta eficácia de uma droga escritos por empregados da indústria e só assinados por pesquisadores de instituições externas; campanhas publicitárias que miram diretamente os médicos; e mimos para a classe médica.

A recorrência de escândalos produzidos por esse ciclo levou à exigência de declaração de conflito de interesse nas publicações científicas nos últimos anos.