Folha de S.Paulo

Republicanos se dobram a Trump, enquanto críticos cedem ou desistem


Apesar do fervor dos adversários republicanos do presidente Donald Trump, seu nacionalismo do tipo linha dura —com apelos culturais viscerais e restrições ao comércio e à imigração – está se enraizando em seu partido adotivo, e os que ficam incomodados com a política da reclamação estão cedendo ou abandonando a luta.

Em alguns casos, o afastamento de um republicano anti-Trump poderia de fato aumentar a probabilidade de o Partido Republicano conservar um assento. A decisão do senador Jeff Flake na terça-feira (24) de não tentar a reeleição foi recebida com suspiros silenciosos de alívio em um partido angustiado pela queda dos índices de aprovação.

Mas tais vantagens em curto prazo mascaram uma ameaça maior, e até existencial, aos republicanos tradicionais. O Grande e Velho Partido (GOP, na sigla em inglês) se arrisca a uma transformação em longo prazo no Partido de Trump.

"Há zero apetite pelo movimento 'Trump Nunca' no Partido Republicano hoje", disse Andy Surabian, um assessor da Grande Aliança Americana, o supercomitê de ação política (PAC) que está ajudando nas disputas primárias contra eleitos republicanos. "Este partido hoje é definido pelo presidente Trump e seu movimento."

Na quarta-feira (25), Joe Straus, o presidente da Câmara dos Deputados do Texas, anunciou que não se candidatará de novo, um indício de que a febre de Washington está se espalhando.

Straus, um pragmático com ligações profundas com a família Bush que se misturava à linha-dura de seu Estado, fez um pedido para que os republicanos "apelem à nossa população diversificada com uma visão otimista", mas ainda assim decidiu fugir e não lutar.

A corrida de Straus se seguiu aos anúncios de aposentadoria de Flake, do senador Bob Corker, do Tennessee, e dos deputados Ileana Ros-Lehtinen, da Flórida, Charlie Dent, da Pensilvânia, Pat Tiberi, de Ohio, e Dave Reichert, do Estado de Washington —todos membros do establishment republicano.

Muitos dos que continuarem terão de se adaptar ao presidente para sobreviver às primárias da direita pró-Trump.

Nas campanhas mais importantes de 2017 —para governador na Virgínia e em Nova Jersey e uma especial para o Senado no Alabama—, os candidatos republicanos estão espelhando as táticas de campanha de tom racial de Trump.

E as autoridades republicanas enfrentam o tipo de candidatura incendiária que um partido mais dedicado a alimentar uma imagem tolerante poderia ter rejeitado.

O motivo? Muitos de seus eleitores preferem a maneira de Trump. "Não somos um elemento", disse Laura Ingraham, uma apresentadora de programa de entrevistas favorável a Trump. "Nós somos o partido."

Ingraham, autora de um novo livro, "Billionaire at the Barricades" [Bilionário nas barricadas], sobre o levante populista que ajudou a eleger Trump, disse que o conservadorismo do internacionalismo voltado para o mercado simplesmente atrai pouco as massas.

"Não há eleitorado para fronteiras abertas, guerra sem fim e esses acordos comerciais internacionais que prejudicam os EUA", disse ela.

Quanto ao apelo do governo limitado que definiu a carreira de Flake, Stephen Bannon , o ex-estrategista-chefe do presidente, foi irônico.

"Esse tipo de coisa que eles têm hoje não funciona, não se mexe com urgência", disse Bannon, que agora orquestra uma iniciativa para derrotar os republicanos considerados insuficientemente leais à agenda de Trump. "É muito bonito. Mas é um exercício teórico. Não pode ganhar eleições nacionais."

Mesmo alguns dos críticos do presidente à direita acreditam que a base do partido ficará leal a ele porque gosta de sua agenda.

"Temos um líder que tem um transtorno pessoal", disse o ex-senador republicano Tom Coburn, de Oklahoma, "mas ele fez o que realmente disse às pessoas que faria, e elas não vão abandoná-lo".

Essa lealdade das bases explica por que nenhum republicano importante na cédula no próximo ano rompeu com Trump —só legisladores em fim de carreira e republicanos sem cargo, como o ex-presidente George W. Bush, foram seus críticos acirrados.

No momento, os congressistas republicanos e Trump estão tentando fazer causa comum de uma reforma do código fiscal porque a consideram uma espécie de panaceia temporária.

Uma cerimônia de assinatura da lei sobre impostos daria aos legisladores algo para se basear no próximo ano, e ao presidente uma realização muito necessária. "Isso detém a sangria", disse o senador Lindsey Graham, da Carolina do Sul.

Na quarta-feira, Trump pintou um retrato cor-de-rosa do partido. "Nós temos, na verdade, uma grande união no Partido Republicano", disse ele a repórteres antes de sair para um evento para angariar fundos no Texas.

Mas enquanto Trump ganhava diversas ovações de pé dos senadores republicanos na terça-feira quando visitou seu almoço semanal no Capitólio, as tensões que pairam no partido também estavam à mostra.

O senador Pat Roberts, do Kansas, um antigo membro da comissão de agricultura, manifestou preocupação sobre se Trump sairá do Tratado de Livre Comércio da América do Norte (Nafta, na sigla em inglês), segundo um republicano presente ao almoço.

Menos de uma hora depois que Trump deixou o Capitólio, Flake estava no plenário do Senado fazendo uma crítica de 17 minutos à era Trump.

Quão agressivamente o presidente seguirá sua plataforma sobre comércio e restrição à imigração poderá testar sua força sobre o Congresso.

Por enquanto, porém, a visão de um partido mais populista-nacionalista esboçada por Bannon está sendo conquistada tanto por intimidação quanto por expurgos reais nas primárias republicanas.

O que Bannon está tentando fazer —e o que a aposentadoria de Flake poderá incrementar— é causar medo nos republicanos que não demonstram entusiasmo suficiente pela nacionalismo adotado por Trump.

"Isto deve ser um grito de advertência para qualquer outro 'Trump Nunca' no Senado hoje: seu tempo terminou", disse Surabian.

Isso está se verificando não só nos exemplos de Flake e Corker. Em Nevada e Mississípi, os senadores Dean Heller e Roger Wicker reagiram às ameaças nas primárias inspiradas por Trump dando passos para enfatizar sua lealdade ao presidente.

Na quarta-feira, o senador John Cornyn, do Texas, o republicano nº 2 no Senado, endossou o ex-juiz Roy Moore na corrida para o Senado no Alabama, elogiando Moore, um conservador social cáustico, como um "incansável defensor conduzido por princípios, mais que pela política". Cornyn é o republicano mais graduado que apoiou Moore formalmente.

Mas a acomodação não está dando pausa aos possíveis rivais. Danny Tarkanian, um republicano que disputa com Heller, disse que a conversa entre os ativistas não é mais dominada por encontrar os candidatos mais conservadores.

"A conversa que eu ouço é: 'Ei, quem vai apoiar as políticas da "América primeiro" de Trump'", disse Tarkanian, citando o comércio, a intervenção militar e o que ele descreveu como "preocupar-se mais com refugiados de outros países do que com nosso próprio povo".

Na Câmara, alguns legisladores que antes se manifestaram contra Trump, como a deputada republicana Martha Roby, do Alabama, agora trabalham para consertar seu relacionamento com a Casa Branca.

"A mensagem que eles estão enviando é: o modo de sobreviver é adaptar-se a ele, mudar de tom e professar lealdade a Trump", disse William Kristol, ex-editor de "The Weekly Standard" e um crítico ferrenho de Trump.

Se Trump conseguirá realinhar permanentemente o partido ao redor de seu estilo e plataforma pode depender de quanto ele continuará fiel ao que poderia ser chamado de trumpismo.

Graham acredita que o presidente não é tão casado com algumas de suas políticas nacionalistas quanto seus seguidores querem acreditar.

"A melhor coisa que poderia acontecer com Trump e o futuro do Partido Republicano é que Trump consertasse o sistema de imigração quebrado", disse Graham.

Ao ligar na semana passada para oferecer apoio a um punhado de senadores republicanos que Bannon tinha citado como potenciais alvos, o presidente demonstrou que não seguirá cegamente seu ex-assessor.

Republicanos do establishment estão tentando convencer Trump de que "se você se unir a Bannon, cortará sua própria garganta", disse Graham, porque isso poderia levar a uma iniciativa de impeachment por um Congresso controlado por democratas.

Mas essas discussões só fazem os primeiros entusiastas de Trump revirarem os olhos. O establishment do partido, segundo esses seguidores, quer governar como se a eleição não tivesse acontecido.

"Eles ainda acham que a eleição teve a ver com a personalidade de Trump", disse Ingraham. "Não foi isso. Foram as ideias dele."

Tradução de LUIZ ROBERTO MENDES GONÇALVES