Folha de S.Paulo

Mulher e irmã de Kim ganham destaque na Coreia do Norte


Quando Kim Jong-un visitou a recém-reformada Fábrica de Cosméticos de Pyongyang, na Coreia do Norte, na semana passada, sorrindo ao admirar as loções, as poções e suas embalagens elegantes, estava acompanhado por duas mulheres.

Elas não estavam no centro das atenções, mas estavam ali.

Uma delas, de terninho preto elegante em estampa floral, era a esposa de Kim, Ri Sol-ju. Eles são casados há sete anos. Ela ficou ao lado de Kim enquanto ele examinava o processo de produção, segundo fotos publicadas no domingo.

A outra mulher no segundo plano trajava a roupa preta funcional de uma funcionária do Partido Comunista e tinha um caderno nas mãos. Era a irmã mais jovem do presidente, Kim Yo-jong.

Cada uma delas tem uma função a cumprir na Coreia do Norte de Kim Jong-un: no caso de uma delas, ser glamorosa e servir de inspiração a outras mulheres; no caso da outra, representar a importância do trabalho árduo. E cada uma oferece pistas sobre o funcionamento do regime opaco de Pyongyang.

"A esposa de Kim Jong-un permite ao líder mostrar um lado mais suave dele mesmo. Eles formam um casal moderno, jovem e descolado", disse Jung H. Pak, ex-analista da Coreia na CIA que hoje trabalha no Brookings Institution.

"A nova geração de norte-coreanos que está crescendo em uma Coreia do Norte nuclear associa ser assertivo com ser glamoroso. Acho que isso inspira esperança."

A irmã de Kim tem cerca de 30 anos e é uma das assessoras mais próximas do presidente. Este mês ele a promoveu para o poderoso birô político do governista Partido dos Trabalhadores, trazendo-a para mais perto do centro da liderança nacional.

"Ela dá apoio a Kim. Sabemos que ela, propriamente dito, não é uma líder", disse Pak.

O status das mulheres varia muito na Coreia do Norte.

Sob o comunismo, as mulheres estão mais integradas à força de trabalho que na vizinha Coreia do Sul, chegando a servir nas Forças Armadas. E são as mulheres que ganham mais dinheiro hoje em dia na Coreia do Norte.

Enquanto seus maridos trabalham em fábricas ou fazendas estatais dilapidadas, em troca de salários miseráveis, as mulheres casadas vão aos mercados e feiras crescentes para vender desde bolinhos de arroz feitos em casa até panelas importadas, frequentemente ganhando várias vezes mais do que seus maridos.

De outras maneiras, porém, os ideais confucianos hierárquicos que persistem há séculos na península coreana continuam muito presentes, levando as mulheres a ser encaradas como cidadãs de segunda classe cuja finalidade principal é criar a próxima geração de soldados.

O conceito de maternidade é forte na Coreia do Norte, sendo o Estado frequentemente descrito na propaganda política como a "pátria mãe" acolhedora. Kim Jong-il, o segundo líder norte-coreano, pai do governante atual, tinha uma canção favorita, "Não há pátria mãe sem ti".

Quase todas as mulheres elevadas a posições de senioridade na Coreia do Norte chegam a elas através de suas relações familiares.

É o caso de Choe Son-hui, a principal interlocutora que o regime tem com os Estados Unidos. Ela é filha de um ex-primeiro-ministro, e acredita-se que se comunica diretamente com Kim.

A mulher mais famosa no país é Kim Jong-suk, esposa do presidente fundador da nação, Kim Il-sung, e mãe de Kim Jong-il. Ela é venerada como combatente anti-imperialista.

Kim Jong-il nunca apareceu em público com nenhuma de suas cinco consortes, mas desde 2011, quando seu filho se tornou o líder da Coreia do Norte, o regime começou a idolatrar Ko Yong-hui, a segunda esposa de Kim Jong-il e mãe de Kim Jong-un.

A irmã de Kim Jong-il, Kim Kyong-hui, também foi figura destacada no Partido dos Trabalhadores, tendo ocupado vários cargos influentes e anteriormente ocupado uma vaga no Politburo que agora é de sua sobrinha, Kim Yo-jong.

Ela e seu marido prepararam Kim Yo-jong para o papel que ela ocuparia, disse Michael Madden, que escreve no site North Korea Leadership Watch.

Mas Kim Kyong-hui não é vista em público desde 2013, quando Kim Jong-un mandou executar seu marido dela —e tio dele—, aparentemente por ter acumulado poder demais.

Kim Yo-jong apareceu em público pela primeira vez no funeral de seu pai, no final de 2011, e hoje, segundo Madden, está claro que ela é encarregada de promover a imagem de seu irmão.

Ela comanda o departamento de propaganda política e agitação do Partido dos Trabalhadores —cargo que levou o Departamento de Tesouro norte-americano a submetê-la a sanções este ano— e já foi vista organizando papéis e logística em vários eventos importantes, incluindo uma parada militar.

"Kim Yo-jong sempre está no segundo plano, meio que escondida atrás de seu irmão em algum lugar. Ela não é importante por ela mesma, mas faz parte desse governo dinástico, disse Pak, do Brookings Institution.

Os laços de sangue pesam muito na Coreia do Norte. A família Kim conserva o poder em suas mãos há mais de sete décadas, dependendo da lealdade de um círculo interno e se arrogando uma espécie de direito divino ao poder.

A esposa de Kim vem desse círculo interno de seguidores fiéis.

Ri, que se acredita que tenha alguns anos menos que seu marido, que tem 33, vem de uma família da elite que ajuda a conservar os Kim no poder.

Ri Pyong-chol, um ex-general de alto escalão da força aérea que sempre aparece ao lado de Kim durante os lançamentos de mísseis, é seu avô ou tio-avô, segundo Madden.

Consta que ela teria sido cantora na Orquestra Unhasu, que participa dos esforços de propaganda política do regime, e que em 2005 teria viajado à Coreia do Sul como membro de um grupo de líderes de torcida em um evento esportivo.

Kim e Ri Sol-ju teriam sido apresentados pela tia e o tio posteriormente executado de Kim. Eles teriam se casado em 2009 e 2010, com a bênção de Kim Jong-il. Acredita-se que eles tenham dois ou três filhos, se bem que apenas um dos nascimentos tenha sido confirmado —pelo jogador de basquete Dennis Rodman.

O ex-jogador dos Chicago Bulls segurou a bebê, chamada Ju Ae, numa visita que fez à Coreia do Norte em 2013. "Segurei a nenê deles, Ju Ae, no colo, e conversei com a sra. Ri também. Ele é um bom pai e tem uma família linda", disse Rodman a jornalistas após a viagem.

Quando Ri é vista em público, exercendo o papel de esposa dedicada, frequentemente está trajando terninhos em estilo Chanel. Uma vez ela foi vista com uma bolsa Christian Dior —ou pelo menos uma imitação.

Na Coreia do Norte de hoje, a ideia é que a família Kim representa um novo tipo de ideal socialista e que seu país seria uma nação moderna, com estilo e com armas nucleares.

Mas esse ideal pode trazer problemas ao regime.

"Ele eleva as expectativas", explicou Pak. "Se você é um norte-coreano comum e vive se matando de trabalhar, mas suas expectativas não se cumprem, você não consegue concretizar esse sonho de consumo."