Folha de S.Paulo

Investigação sobre Rússia leva Google e outros a rejeitar o rótulo 'social'


Depois de anos de insucesso em suas tentativas de criar uma rede social capaz de competir com o Facebook, o Google enfim extraiu alguma coisa de todos esses fracassos: cobertura.

Esta semana, congressistas americanos interrogaram executivos do Google, Facebook e Twitter em um trio de audiências cujo foco era o papel da mídia social para o sucesso de uma campanha de desinformação russa durante a temporada eleitoral americana de 2016.

O representante do Google em duas das audiências, Kent Walker, seu vice-presidente jurídico, fez questão de distinguir o gigante das buscas de seus pares na internet.

Durante as audiências, ele respondeu a perguntas declarando, repetida e inequivocamente, que "não somos uma rede social".

As empresas de tecnologia estão levando uma surra no tribunal da opinião pública, nos últimos meses. Aos olhos de seus críticos, elas se tornaram grandes demais, poderosas demais e despreocupadas demais com a influência que exercem. E as audiências legislativas desta semana expuseram de maneira desconfortável o crescente embaraço do setor quanto à interferência russa na eleição de 2016.

"Essas empresas não têm fiscalização suficiente, e jamais imaginaram que serviços de inteligência estrangeiros poderiam abusar de suas plataformas da maneira que fizeram", disse Renee DiResta, pesquisadora de segurança independente da organização Data for Democracy. "As pessoas que as dirigem parecem não compreender plenamente as implicações daquilo que criaram".

Não surpreende, talvez, que algumas das maiores empresas do setor pareçam felizes ao dizer, em resumo, que "a culpa não foi nossa".

Tim Cook, presidente-executivo da Apple e adversário ferrenho das práticas de coleta de dados dos rivais de sua empresa no campo da tecnologia, declarou na quarta-feira que estava preocupado com a possibilidade de que as redes sociais sejam transformadas em uma arma contra as pessoas que as usam.

"A questão maior é que algumas dessas ferramentas estão sendo usadas para dividir as pessoas, para manipulá-las, para levar notícias falsas a elas em grande volume, e assim influenciar aquilo que pensam", disse Cook em entrevista á rede de TV NBC.

Frank Shaw. vice-presidente de comunicações da Microsoft, uma das mais antigas rivais da Apple, elogiou a declaração de Cook, afirmando em um post no Twitter que ele havia enquadrado a questão "perfeitamente".

No ano passado, a Microsoft tomou o controle do LinkedIn, uma rede social orientada ao emprego, por US$ 26,2 bilhões, mas o site parece ter desempenhado papel pequeno nos esforços russos para influenciar a política dos Estados Unidos.

Com a ascensão do Facebook, Twitter e muitas outras empresas desse segmento, nos 10 últimos anos, "social" se tornou um jargão quente no Vale do Silício, e empresas começaram a incorporar recursos semelhantes aos das redes sociais aos seus novos produtos.

Mesmo a Apple, apesar das dezenas de bilhões de dólares que faturou com a fabricação de aparelhos de computação, experimentou as águas, com uma rede social cujo foco é a música.

Mas agora que a mídia social está cada vez mais conectada a confrontos desagradáveis, trocas de insultos raciais e propaganda russa, o rótulo "social", antes obrigatório, se tornou um albatroz, disse Joseph Bayer, professor assistente da Universidade Estadual do Ohio que pesquisa sobre redes sociais.

"O simples fato de quer uma empresa de tecnologia esteja tentando minimizar a influência que de fato exerce é um sinal revelador sobre o momento que vivemos", disse Bayer.

O Google, que opera sob o controle da holding Alphabet, é capaz de oferecer uma distinção entre seus negócios e a maneira pela qual as redes sociais operam —mas isso acontece em larga medida porque seus esforços para desenvolver uma rede social não tiveram muito sucesso.

A empresa investiu milhões de dólares na criação do Google+, um site social desenvolvido especialmente para competir com o Facebook. A companhia vinculou o Google+ a praticamente todas as suas propriedades, descrevendo-o como a "espinha social" do Google, em declarações divulgadas na época.

Houve também esforços nada duradouros, como o Google Buzz e o Google Wave, ou sites geograficamente específicos como o Orkut —popular no Brasil mas ignorado no resto do mundo.

O Google+ continua a existir, mas é considerado uma decepção. O Google informou que não encontrou posts políticos de agentes associados a Estados estrangeiros em sua rede social.

A companhia já tentou diversas vezes fazer do YouTube, seu bem sucedido serviço de vídeo online, um sucedâneo de rede social, na esperança de manter o interesse dos visitantes. No ano passado, o YouTube criou um produto chamado Community, que consiste essencialmente de um pacote de recursos para inspirar maior interação entre seus usuários.

O Google informou que contas supostamente associadas ao Kremlin postaram mais de 1,1 mil vídeos sobre temas raciais, religiosos e políticos no YouTube. Esses vídeos atraíram 309 mil visitas. Muitos deles receberam número muito pequeno de visitantes, embora tenham sido "postados frequentemente em outras plataformas de mídia social", disse Richard Salgado, diretor jurídico do Google para questões policiais e de segurança da informação, a um subcomitê do Senado, na terça-feira.

O Facebook, em comparação, estimou que mais de 150 milhões de usuários de sua rede social e do Instagram, uma subsidiária, tenham sido expostos a 80 mil posts associados à campanha russa de influência.

O Twitter anunciou ter descoberto 2,7 mil contas associadas à Internet Research Agency, uma companhia russa vinculada ao Kremlin, operando no período entre setembro e novembro de 2016.

Essas contas postaram cerca de 131 mil tuites no período em questão. O Twitter identificou 36 mil outras contas automatizadas que haviam postado 1,4 milhão de tuites relacionados à eleição e vinculados a Rússia, no mesmo período. Esses tuites foram vistos 288 milhões de vezes.

"Agora, a atenção do Congresso está toda voltada ao Facebook e ao Twitter porque eles são peças centrais" das operações de desinformação russas, disse DiResta.

Em seu depoimento ao Congresso, Walker, o vice-presidente jurídico do Google, buscou estabelecer uma distinção clara entre os serviços de sua empresa e plataformas de mídia social como o Facebook e o Twitter —este último vem sendo alvo de ocasionais rumores quanto a uma aquisição pelo Google.

Ele também minimizou o volume de informações de que o Google dispõe sobre seus usuários, uma posição surpreendentemente ousada para uma empresa que ganha mais dinheiro que qualquer de seus rivais com a venda de publicidade baseada em informações sobre os interesses de seus usuários.

"Nosso posicionamento é um tanto diferente porque não somos primariamente uma rede social", disse Walker em resposta a uma pergunta sobre se o Google não tinha o dever de notificar seus usuários de que eles estão expostos a propaganda ou conteúdo divisivo disseminado por um governo estrangeiro. "Muitos usuários acessam conteúdo sem estarem logados, e por isso é difícil saber quem vê o quê".

Mas a mídia social continua a ser uma proposição atraente para as empresas de internet, mesmo o Google, porque faz com que as pessoas retornem frequentemente e cria um ambiente no qual elas passam bastante tempo, disse Jan Dawson, analista da Jackdaw Research, que pesquisa sobre tecnologia.

O Facebook serve como exemplo. A despeito de semanas de pesadas críticas pelo papel que desempenhou na eleição de 2016, na quarta-feira a empresa reportou mais um trimestre financeiro espetacular, derrubando completamente as expectativas dos analistas e lucrando mais de US$ 4,7 bilhões no terceiro trimestre, uma alta de 79% ante seu resultado no período em 2016.

"Se você desse ao Google a escolha entre ter uma rede social ou não, mesmo com tudo que aconteceu", disse Dawson, "ainda acho que eles optariam por tê-la".