Folha de S.Paulo

Queda de segundo ministro acentua fragilidade do governo britânico


O museu londrino Madame Tussauds revelou nesta semana sua sorridente réplica de cera da primeira-ministra britânica, Theresa May. A governante de carne e osso, no entanto, tem tido poucas alegrias profissionais nas últimas semanas.

Sua ministra de Desenvolvimento Internacional renunciou nesta quarta-feira (8) devido a uma grave quebra de protocolo: durante as férias, Priti Patel se reuniu secretamente com autoridades israelenses, incluindo o premiê Binyamin Netanyahu.

A queda de Patel se soma à do ex-ministro da Defesa Michael Fallon, que renunciou na semana passada devido a alegações de assédio sexual. O chanceler britânico, Boris Johnson, também está na berlinda após uma gafe diplomática.

As crises no alto escalão britânico vêm em má hora. A primeira-ministra, afinal, tem de lidar no ínterim com as complicadíssimas negociações do "brexit", a saída britânica da União Europeia.

As conversas estão emperradas, e autoridades europeias já sinalizam que a rodada de encontros prevista para dezembro pode ser adiada caso May não faça concessões.

O "brexit" é um processo inédito no bloco europeu e será um de seus trâmites mais complexos desde o fim da Segunda Guerra (1939-1945).

Uma pesquisa divulgada na terça-feira (7) pelo instituto ORB indicou que 66% dos eleitores britânicos desaprovam a maneira como o governo tem lidado com essas negociações. Eram 45% os descontentes em maio passado.

O levantamento foi feito entre os dias 3 e 5 de novembro, com 2.044 entrevistas. A margem de erro é de 2,2 pontos percentuais.

Mesmo que May consiga cumprir seus objetivos no "brexit", incluindo retirar o Reino Unido do mercado único europeu, ela dificilmente será popular: a saída britânica da UE foi aprovada por apenas 52% dos votos em 2016.

Enquanto isso, a premiê navega entre atoleiros. Há pouco, teve de lidar com uma série de atentados e com o incêndio que matou 80 pessoas numa torre residencial londrina. Apesar de não serem sua responsabilidade direta, esses episódios minaram sua imagem. Críticos, por exemplo, sugeriram que os cortes no efetivo policial tornaram o país mais vulnerável a ataques.

Como ela não tem sozinha a maioria do Parlamento desde as eleições de junho, seu governo é frágil. Especula-se que ela não chegará ao fim do mandato, previsto para 2022.

A crise mais recente no gabinete de May foi causada pela ministra de Desenvolvimento Internacional, Priti Patel, que teve 12 encontros secretos em suas férias em Israel.

Além de ter se reunido sem o aval do governo, o que é considerado quebra de protocolo, Patel também se complicou ao discutir o envio de ajuda financeira britânica à região das colinas de Golã —que o Reino Unido considera território ocupado desde 1967.

Enfurecendo a primeira-ministra, surgiram ainda notícias de outras reuniões dela com autoridades israelenses nos últimos meses.

Deputados de oposição já exigem explicações sobre se May tinha conhecimento desses encontros. Ela pode ter de enfrentar legisladores em uma aparição pública no Parlamento britânico.

O quadro foi agravado quando Patel deu a entender em uma entrevista que havia avisado Boris Johnson sobre sua agenda. Ela depois negou essa informação.

O próprio Johnson está sob escrutínio político após ter feito declarações delicadas sobre a detenção da britânica Nazanin Zaghari-Ratcliffe no Irã. Ele disse que a condenação de Zaghari-Ratcliffe por sublevação é uma afronta à Justiça e afirmou que ela estava "apenas ensinando jornalismo às pessoas".

A fala de Johnson foi utilizada dias depois como evidência em uma audiência judicial no Irã.

O chanceler teria comprovado, segundo a Justiça iraniana, que Zaghari-Ratcliffe cometeu o grave crime de propaganda contra o regime —o que pode ampliar sua pena.