Folha de S.Paulo

Michael E. Porter: Para medir o desenvolvimento


Há 80 anos o Produto Interno Bruto (PIB) foi introduzido como a primeira medição global de renda nacional. Desenvolvida pelo economista Simon Kuznets em relatório encomendado pelo Congresso dos EUA para medir a atividade econômica durante a Grande Depressão, o PIB em pouco tempo passou a ser o indicador que define o progresso nacional. É pelo crescimento do PIB que sabemos se um país está avançando, e o PIB per capita tornou-se a medida definitiva do padrão de vida.

Contudo, cada vez mais comentaristas começaram a questionar se basta o PIB para medir o êxito nacional. Notadamente, após a crise financeira de 2008, Joseph Stiglitz, Amartya Sen e Jean-Paul Fitoussi lançaram seu estudo "Mismeasuring our Lives", argumentando que "se usarmos a métrica errada, vamos nos esforçar para obter as coisas erradas".

O próprio Kuznets já deixou claro que o PIB é uma lente econômica limitada para se avaliar o progresso. "O bem-estar de uma nação", escreveu em 1934, "não pode ser totalmente inferido pela medida da renda nacional". Nosso padrão de vida reflete ativos sociais, ambientais e comunitários, não apenas ativos econômicos. A felicidade e a realização dependem de fatores como a saúde, o acesso ao conhecimento, a existência de comunidades tolerantes e oportunidades de realização pessoal.

O PIB não é mau –ele simplesmente mede o que mede, e aquilo que ele mede é limitado. O mal-estar social que levou à Primavera Árabe em muitos países "prósperos" é um sinal de que medidas econômicas, por si só, são inadequadas para avaliar o êxito de uma sociedade. A insatisfação e os protestos no Brasil, país que nos últimos anos vem registrando crescimento econômico forte, nos diz a mesma coisa.

As insuficiências do PIB e a necessidade de medir melhor são amplamente reconhecidas. O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) das Nações Unidas foi um passo importante, quase 25 anos atrás, mas é baseado em um número limitado de indicadores, um dos quais é o PIB, e não leva em conta a sustentabilidade ambiental. O IDH é um guia incompleto aos desafios e oportunidades sociais enfrentados pelos países –ricos, pobres e emergentes– no século 21.

Essa necessidade crítica levou ao desenvolvimento do Índice de Progresso Social, o esforço mais inclusivo e ambicioso já lançado para medir o progresso social de modo abrangente. O Índice de Progresso Social define o progresso social segundo três dimensões amplas: o país possui a capacidade de satisfazer as necessidades humanas básicas de sua população? O país possui as instituições e condições que permitam a seus cidadãos e comunidades melhorar sua qualidade de vida? O país oferece um ambiente em que cada cidadão tenha a oportunidade de alcançar seu potencial pleno?

O Índice de Progresso Social emprega os dados mais exatos disponíveis para medir a performance dos países nessas três áreas amplas, usando indicadores que medem resultados –como expectativa de vida, alfabetização e liberdade de escolha– em vez de insumos, como volume de gastos governamentais ou leis aprovadas. Este ano o índice vai medir o progresso social em 129 países que representam mais de 90% da população mundial.

O Índice de Progresso Social visa captar a gama de questões que constituem o bem-estar e identificar áreas prioritárias que requerem melhoras. No caso dos Estados Unidos, o índice revela as falhas de nosso sistema de saúde, nosso desempenho insuficiente na área ambiental, a falta de segurança pessoal e nosso desempenho fraco na inclusão de todos os cidadãos na era digital.

Pelo fato de o Índice de Progresso Social medir resultados sociais abrangentes de modo direto, independentemente dos indicadores econômicos, podemos, pela primeira vez, estudar a relação entre o PIB per capita e o progresso social. Constatamos que o aumento do PIB per capita de fato está correlacionado à melhora do progresso social, mas que a ligação está longe de ser automática. Com níveis semelhantes de PIB, descobrimos que alguns países alcançam nível de progresso social muito mais alto que outros. Por exemplo, Costa Rica tem muito mais sucesso que a África do Sul em termos de progresso social.

O PIB vai continuar a ser uma medida crucial de progresso econômico, mas agora podemos medir o progresso social de maneiras que Kuznets e seus contemporâneos mal poderiam ter imaginado. Hoje, quando comemoramos um marco de tantos anos atrás na mensuração de países, podemos aspirar a muito mais. A capacidade de medir o bem-estar nacional vai melhorar muito nos próximos anos, e essa melhora será acompanhada por progresso acelerado.

MICHAEL E. PORTER, 66, é professor de economia na Universidade de Harvard (Estados Unidos)

Tradução de Clara Allain

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