Folha de S.Paulo

Reforma, Brasil


A Reforma foi um movimento de natureza espiritual, com consequências econômicas, políticas e culturais. O objetivo dos reformadores era a correção dos desvios da igreja medieval. Distâncias e barreiras que marcavam a vida religiosa foram abolidas: entre Deus e os seres humanos, entre o clero e o povo, entre o texto sagrado e os fiéis.

Entretanto, como observou Max Weber (1864-1920), efeitos não previstos acompanharam o movimento. O monopólio religioso foi rompido, e se inaugurou, ainda que de modo embrionário, o pluralismo.

As esferas civil e espiritual foram separadas. A vida econômica foi impulsionada por nova racionalidade. Por diferentes e tortuosos caminhos, a distância entre cidadãos e governantes foi questionada, e novos modelos de governo representativo emergiram no Ocidente.

Seria pueril creditar à Reforma a construção da modernidade ocidental, mas também seria uma grave omissão não reconhecer sua contribuição, ao lado de outros movimentos do espírito humano, para os fundamentos da vida moderna.

Que significa celebrar os 500 anos da Reforma no Brasil? Sugiro que comecemos lembrando um de seus princípios: a igreja reformada deve sempre se reformar.

É preciso repudiar, em um exercício de autocrítica, o uso cada vez mais frequente de títulos religiosos por parte de candidatos que se pretendem representantes dos evangélicos. Uma das marcas da Reforma é sua diversidade de organização e pensamento; logo, ninguém está autorizado a representar na política partidária os evangélicos.

Embora, por respeito às liberdades individuais, não se deva impedir alguém de ser candidato utilizando na sua propaganda seu título religioso, entendemos que, dentre as medidas saneadoras para a política, esse uso deva ser reservado às finalidades religiosas, e nunca para candidatura eleitoral.

É no mínimo questionável a seriedade, para com sua própria religião, daquele que não tem pudor de usá-la com finalidades eleitorais.

Isso não significa o banimento das visões religiosas na política. Afinal, a democracia é empobrecida quando valores dos cidadãos são menosprezados sob o pretexto de laicidade estatal, assim como é distorcida quando se instrumentaliza o Estado para a imposição de comportamentos morais que só fazem sentido se respaldados na escolha e convicção pessoal.

Mas, nas suas relações com o Estado, a religião cava seu próprio inferno de descrédito quando cai na tentação de lançar mão do poder político para obtenção de vantagens, como se viu na tentativa recente do perdão de dívidas das igrejas para com a Receita Federal.

Honraremos o espírito da Reforma Protestante lutando por uma reforma política de verdade para o Brasil, e não buscando privilégios para instituições religiosas infratoras da lei.

A gravidade da hora exige a criação do voto distrital, o fim do foro privilegiado e da reeleição sem limites para o Legislativo.

É preciso avançar com medidas para redução dos custos da representação política e do poder financeiro nas campanhas, dentre outras tantas medidas que diminuam o abismo entre os cidadãos e seus representantes.

Tais objetivos somente serão alcançados se a sociedade fizer as regras da política, e não os políticos de carreira que aí estão.

As teses fixadas às portas da igreja do Castelo de Wittenberg, na Alemanha, lembram-nos que as escolhas religiosas terão sempre consequências políticas.

Algumas dessas consequências são conhecidas já no presente, e outras o serão somente no futuro. O que se pode conhecer das escolhas feitas no Brasil de hoje exige uma reforma de verdade, na política e nas igrejas.

VALDINEI FERREIRA é pastor titular da Primeira Igreja Presbiteriana Independente de São Paulo e doutor em sociologia pela USP

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