Folha de S.Paulo

Previdência requer autonomia e educação


A discussão sobre a reforma da Previdência parte de premissas incompletas e que fazem com que o projeto em tramitação no Congresso, uma vez aprovado, tenha data de validade vencida.

O argumento sobre "a conta que não fecha" encontra razões facilmente mapeadas pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), que projeta até 2030 um crescimento de 6,9% da população em idade ativa e de 70,6% dos cidadãos acima de 65 anos, provavelmente aposentados e com expectativa de vida acima de 75 anos.

O índice de desemprego, de cerca de 13%, deverá se manter por algum tempo, pois as empresas se ajustaram para trabalhar com um contingente reduzido de trabalhadores. Custa caro contratar e mais ainda demitir.

Outro aspecto delicado é que não há garantia alguma de que pessoas de 50 anos encontrem emprego e contribuam por mais 15 anos. As empresas não declaram, mas sabemos que há preconceito na contratação de pessoas nessa faixa etária.

Contudo, as pessoas a favor ou contra a reforma esquecem-se, inocente ou propositalmente, de um aspecto que tornará os números ainda mais cruéis.

A produção industrial e os serviços estão sendo transformados pela automação, pela robótica e pela inteligência artificial, aumentando a produção na mesma intensidade da redução do emprego para as pessoas em idade ativa, afetando todas as faixas etárias.

Precisamos nos preparar para trabalhar ao lado de sistemas, de robôs e de chatbots (programas que simulam um atendimento humano), não somente em atividades com mão de obra intensiva e rotinas repetitivas, mas em uma ampla gama de atividades ligadas aos serviços, tais como rotinas de advogados, de médicos e de professores.

Profissões inimagináveis hoje serão criadas, e a relação com o trabalho será transformada.

A saída para a Previdência deverá passar por uma reforma tributária ampla, na qual a tecnologia que substituirá a mão de obra deverá colaborar na manutenção de pessoas sem empregos.

O governo deverá administrar políticas públicas que garantam um programa de renda mínima para a população, e o modelo atual de Previdência pública deverá ser adaptado a um sistema misto e opcional.

Para prepararmos as próximas gerações, a escola precisará educar os jovens em temas como gestão financeira e empreendedorismo. Em um mundo com carência de empregos, a geração de renda poderá ser realizada por outros caminhos além da carteira assinada.

As pessoas precisarão aprender a gerir seus recursos de forma independente, em uma atitude madura e responsável, cuidando cada um de sua própria Previdência e se desvinculando dessa relação de dependência do governo. O mesmo vale para quem está no meio do caminho, independentemente da idade.

Outro caminho implicará a identificação de critérios que definam quem receberá ou não aposentadoria. A renda e o patrimônio determinarão o quanto caberá a cada um. Quem tem mais receberá menos.

Ao final, para alguns não haverá nada a receber, pois não precisarão ou não terão feito tal opção. Para muitos, a gestão pública da Previdência será parte de toda a vida. A questão é: como garantir isso?

EDSON S. MORAES é consultor de estratégia e conselheiro executivo; atuou como executivo de tecnologia do Bank of America de 1982 a 2003

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