Folha de S.Paulo

Sexualidade do adulto é diferente da sexualidade infantil


No final dos anos 90 e com o advento da internet, as primeiras denúncias de pedofilia escoaram do recinto íntimo e criminoso de abuso sexual infantil para o espetáculo público.

Explodiu em muitos cantos e rincões da geografia social, econômica, política e, por último, familiar, de modo que ninguém mais podia ficar indiferente quando as imagens de pornografia infantil eletrônica expunham adultos em cenas de sexo com crianças.

Nos últimos 20 anos, a opinião pública ficou mais esperta, ou seja, as informações sobre o fenômeno "pedofilia" se espalharam pela rede digital a ponto de surgirem canais de comunicação, sinais de SOS de denúncia e forças-tarefas com o intuito de proteger as crianças do alcance das mãos de pedófilos.

Desde então, quanto mais complexos e chocantes os casos, mais visibilidade alcançam e todos os dias surgem novos casos para renovar o voto de indefensabilidade do ato sexual com crianças.

A pedofilia não é exclusividade de uns ou de outros; é uma tara, um desvio pulsional quanto ao objeto e objetivo sexual. Para alguns indivíduos, o desejo e a ousadia os levam a transgredir as leis do incesto e do parricídio.

A síndrome do "pequeno poder" subjaz aos cenários cotidianos de abuso, onde um adulto entende ter o poder de tirar proveito do corpo infantil com a finalidade de obter prazer, ferindo o pudor alheio.

Como consequência, a vitimização infantil cresce e impulsiona a demanda por atendimento e acolhimento de menores e bebês vitimados.

Em paralelo aos fatos reais dos crimes de abuso sexual infantil, a iconografia do tema ganhou voz no cinema, nas artes plásticas, literatura, histórias em quadrinhos, livros infanto-juvenis, documentários e até na música, com artistas consagrados denunciando a situação de risco das crianças.

Para citar alguns exemplos: o poema documentário "Love Will Rescue You" (2015), de Matthew Kelly e Danny Paradise, representando, em desenho animado do cineasta de animação Céu D'Elia, o mundo do tráfico de crianças escravas de Mianmar para a Tailândia; da prostituição infantil e dos que escapam e são resgatadas pela ONG Children of the Forest. Lançado nas Nações Unidas, o documentário tem o mérito de representar uma tragédia com delicadeza.

Na mesma toada, o livro "Barneskjebner" (1990), da artista norueguesa Kari Grasmo, reproduz uma seleção de pinturas dedicadas à infância em perigo, sendo que uma dessas imagens, Til em Pappa, reproduz um pênis que, pela boca, atravessa a cabeça de uma criança e se transforma em um chafariz de sêmen desaguando pelos olhos. Na testa, com a franja loura e uma cruz entre as sobrancelhas, a imagem estampa o pior de se ver.

A produção artística consegue representar dramas e tragédias humanas da vida cotidiana com novas significações. Às vezes, surgem curtos-circuitos entre as percepções, na recepção da obra, filme ou livro. O que afeta tanto a opinião pública quando a ofensa sexual fere o pudor público e reações de ódio e agressividade incitam a massa?

O filme "A Caça", de Thomas Vinterberg (2012), reflete bem como uma comunidade incrimina o professor Lucas pelo assédio sexual da menina Klara, de cinco anos, filha do melhor amigo, porque não pode distinguir a confusão de línguas existente entre um adulto e uma criança.

A sexualidade do adulto é diferente da sexualidade infantil. Essa afirmação freudiana recupera a grande descoberta a ser feita pelas crianças, quando elas se perguntam sobre a nudez do corpo que acusa a diferença anatômica e a vida sexual dos adultos.

A denominada "cena primária" serve de base às construções das fantasias sexuais infantis em relação ao modo como os adultos tiram prazer do corpo do outro. É a forma que a criança tem de saber o que, muitas vezes, não é contado para ela.

Olha pelo buraco da fechadura, pede para dormir na cama com os pais, no banho quer tocar nos órgãos genitais dos pais, ou seja, não sossega até cessar a investigação. Aliás, o autoerotismo infantil é fruto do investimento libidinal da mãe e até Freud ousou dizer que, em primeira instância, a mãe é quem primeiro seduz o bebê.

O vídeo que circulou mostrando a mãe e a filha interagindo na performance "La Bête", durante a abertura da Mostra de Arte Brasileira do MAM, de São Paulo, expôs à luz fragmentos representativos da "cena primária" inconsciente dos adultos.

O ato aludiu ao conteúdo reprimido de forma espetacular. As imagens do vídeo mostram uma criança, com a mãe indicando onde a menina deveria tocar o corpo do performer: os pés e as mãos. Entretanto o fato revela dois adultos e uma criança, onde o nu de um deles evoca o véu que separa o pudor e a vergonha do obsceno.

Para a criança, a inocência é um desconhecimento que pode ser elucidado pelo adulto. Mas quando o tabu e a censura se diluem, a inocência passa a ser uma desconfiança. Nesse ínterim, a "cena primária" inconsciente reascende na imaginação do adulto, o que outrora habitava no ser infantil.

Seja nos ambientes de festas de crianças, clubes e piscinas, museus ou escolas, se põe em evidência o que cada adulto já imaginou como pornografia ou situações de sexo com crianças; por isso, a reação pública é de indignação e ofensa.

Nessa hora, os oportunistas de plantão, que acusam o performer e o MAM de expor arte degenerada e incitação à pedofilia o fazem para impor uma forma horrenda de controle sobre as produções artísticas e criativas do ser humano, equivocando a opinião pública.

Enfim, fatos e tatos como estes sempre irão produzir reações, pois alteram o sentimento de infância e de família que teriam a função de dar lugar a uma etapa crucial do desenvolvimento pessoal, quando a sexualidade do adulto teve que renunciar à completude, deixando de ser primitiva ao humanizar as pulsões destrutivas de Tânatos.

FANI HISGAIL é psicanalista e autora de "Pedofilia, um Estudo Psicanalítico" (editora Iluminuras, São Paulo, 2007).

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