Folha de S.Paulo

Agora só resta o consumo consciente


A situação é crítica no setor de energia elétrica. Os reservatórios do Norte, Nordeste, Centro-Oeste e Sudeste atingiram índices tão baixos que o alarme soou alto.

Apenas no Sul a situação é um pouco melhor, o que não atenua a crise que levou a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) a aprovar o aumento de 42,8% no valor cobrado na bandeira vermelha acionada em nível 2, de R$ 3,50 para R$ 5,00 a cada 100 kWh. Uma decisão que vai encarecer a conta de luz entre 2% a 3% em todo o país.

As previsões não indicam alívio para o período de estiagem, e os reservatórios das hidrelétricas chegaram a patamares inferiores aos de 2001, ano em que em houve racionamento. O governo já acionou as termelétricas movidas a carvão, gás e óleo, mais poluentes e a um custo de geração bem mais alto.

Também está importando energia da Argentina e do Uruguai e já decidiu antecipar de março para janeiro a entrada de Belo Monte no sistema. As usinas eólicas do Nordeste estão funcionando a pleno vapor.

Tanto esforço não basta diante da gravidade da situação. As distribuidoras lançam, em novembro, uma campanha nacional para pregar o consumo consciente de energia.

A hora é de economizar em casa, na indústria no comércio mesmo e apesar das altas temperaturas e da proximidade do verão. Sem a participação de todos e de cada um, nenhuma medida governamental será suficiente, e o desabastecimento não interessa a ninguém.

O exemplo tem de vir de cada domicílio. Ar condicionado, aquecedores, chuveiros elétricos são os campeões no consumo de energia. Usar com parcimônia, sem exagero, não apenas ajuda a economizar energia, evita também que a conta de luz não surpreenda, para o mal, no fim do mês.

Desligar aparelhos como computadores e cafeteiras elétricas quando estiverem fora de uso é outra ação que todos devemos fazer. Calibrar geladeiras e freezers, para evitar gastos desnecessários, é outro item que devemos cuidar. Assim como adotar lâmpadas econômicas, prestar atenção para desligar TVs quando ninguém estiver assistindo.

A agência reguladora deixou claro, com as medidas adotadas até agora, que as contas de luz tendem a se manter altas por um longo período, e as previsões climáticas para o ano que vem indicam que a situação de abastecimento das hidrelétricas continuará crítica.

Novas decisões devem ser tomadas para assegurar o fornecimento de energia ao país e, seguramente, nenhuma sairá barata para o consumidor. O nível médio dos reservatórios gira em torno de 20%. Em 2015, quando o Brasil enfrentou uma estiagem forte, estava em 34%.

O consumo consciente é uma ação a ser posta em prática já por toda a cadeia de consumo. Não dá para esperar por chuvas que não se anunciam, no futuro, na quantidade necessária para atenuar a situação dos reservatórios.

Nem se pode contar indefinidamente com as caras termelétricas e as importações, igualmente pesadas para nossos bolsos. Temos de aprender a usar a energia com eficiência e consciência. Sem desperdício. Para garantir hoje a luz de amanhã.

SÉRGIO MALTA é presidente do Sindicato Interestadual das Empresas de Energia Elétrica e diretor do Conselho Mundial de Energia

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