Folha de S.Paulo

Ombudsman por um dia: Surpresa!


Sou publicitário. Escrevo anúncios que ajudam a sustentar a receita dos jornais e a dar a eles liberdade financeira para descerem o sarrafo em quem quiserem.

Por isso, piso com cuidado nesse solo sagrado do jornalismo no meu papel de ombudsman por um dia. Jornalismo que a Folha tão bem pratica há décadas. Moderna desde sempre, ela, que há 25 anos criou o posto de ombudsman, precisa continuar chacoalhando o jornal e o jornalismo brasileiro, porque esse é o papel da Folha. Só quem não pode copiar e seguir a Folha é a Folha. A Folha pode errar, se perder. A Folha só não pode se repetir.

Os jornais estão sob ataque da internet, mas não apenas enquanto plataforma tecnológica, porque nessa área podem se unir à web e expandir de forma extraordinária seu universo de leitores, como, aliás, já estão fazendo muito bem. Os jornais estão sob ataque da internet principalmente como plataforma mental.

Vendo o Facebook, o Twitter e o Instagram, fica muito claro que os seres humanos do século 21 não querem só conversar sobre política e economia, economia e política.

O homem de hoje é um ser renascentista. Ele quer falar de comida, mas também quer falar de nutrição. Quer falar de futebol, mas também de maratonas, Ironman e surfe. Ele quer falar sobre negócios, mas quer ler sobre todos os flagelos que afligem os CEOs e os executivos hoje, como o stress e a exaustão digital.

E os jornais podem fazer tudo isso sem macular o jornalismo, como comprovam de maneira esplêndida o "New York Times", o "Guardian" e o "Financial Times", para citar alguns exemplos.

O caderno de fim de semana do "Financial Times" é um dos maiores prazeres que se pode ter. Fala de tudo que você não espera de um jornal voltado desde o título às finanças, como jardinagem, arquitetura, moda, vinhos. Frivolidades: vida.

O que esses grandes jornais fazem de surpreendente é que eles trazem tudo o que a gente não espera de um jornal. É assim que, como ombudsman, hoje, e como leitor, sempre, eu cobro da Folha que ela me surpreenda. E lanço aqui um monte de ideias desordenadas que os publicitários chamam de "brainstorming", ou, no velho e bom português, palpites.

Palpites que todo leitor, filho adolescente ou cunhado adoram dar na vida de um jornal. Então, aqui vai, querida Folha: por que só ter política, política e política no primeiro caderno? Por que não misturar os assuntos? Outra coisa linda seria um editorial falado.

Não seria incrível ver Clóvis Rossi ou Elio Gaspari escrevendo obituários de substância?

A Folha não deveria ter também uma coluna social mais fotográfica como o Instagram?

A Folha não poderia convidar personalidades para escreverem colunas de serviços? Exemplos: Boni ("Vinho e Turismo"), Marisa Moreira Salles ("Arquitetura"), Daniela Jobst ("Nutrição"), Adriana Vilarinho ("Beleza"), Isabel Duprat ("Jardinagem"), Sig Bergamin ("Decoração"). Já fez isso no campo da opinião, por que não com serviços?

Por que não ampliar a cobertura de esportes para novos velhos esportes, como corrida e surfe? Por que não ampliar o escopo de "Mercado" para ser também o caderno da vida do homem de negócios que trata de saúde, golfe, corrida, o novo smartphone e reposição hormonal?

Por que não fazer parcerias com Harvard, Stanford e MIT para que os grande professores do mundo iluminem os leitores com ideias surpreendentes numa Folha global?

A vida, às vezes, parece que não é importante para o jornal. Não adianta falar de moda procurando escândalo financeiro na Versace. A mulher quer saber que sapato vai usar na próxima estação.

E precisa trocar esse nome de caderno "Cotidiano". É broxante. Quem quer saber do cotidiano?

A Folha é o jornal do Brasil moderno e tem tudo para ser o jornal do Brasil 4G, nos surpreendendo com novos erros e, sobretudo, novos acertos.