Folha de S.Paulo

Posto de gasolina no DF motivou operação


À primeira vista parece um posto de gasolina como milhares de outros no país.

Localizado no setor hoteleiro sul de Brasília, a cerca de 3 km do início da Esplanada dos Ministérios, seus 85 funcionários, em turnos, cuidam da lanchonete, da pastelaria, da loja de conveniência e das 16 bombas de abastecimento –que atendem entre 3.000 e 3.500 veículos por dia, segundo os dados fornecidos pela gerência.

Há também no posto –e aqui o cenário começa a se complicar– uma casa de câmbio de valores, fechada desde a manhã de 17 de março deste ano, quando a Polícia Federal cumpriu ali um dos 81 mandados de busca e apreensão daquele dia.

Era o início da Operação Lava Jato, que investiga uma série de fraudes em licitações e corrupção de servidores públicos na Petrobras.

Conforme atestam documentos do inquérito da PF, a investigação ganhou esse nome em referência ao Posto da Torre. Por ironia, lá existe uma lavanderia de roupas, mas nem sinal de um lava-jato para carros.

"Aqui funciona há 50 anos, nunca houve lava-jato", diz o gerente Rogério Frony.

Em "Breaking Bad", seriado da TV norte-americana de enorme sucesso, um professor envolvido com a produção de droga sintética decide comprar um lava-jato para dar aparência de legalidade ao dinheiro proveniente do crime. No seriado, o negócio é descoberto e ele acaba em maus lençóis. Na vida real não foi diferente.

O dono do Posto da Torre, Carlos Habib Chater, 45, foi preso em março e até a última sexta permanecia encarcerado na penitenciária de São José dos Pinhais, no Paraná.

Há cerca de 20 anos Chater tem problemas com a lei. Antes da Lava Jato, ele foi indiciado pela PF e denunciado pelo Ministério Público junto com seu pai, Habbib Salim El Chater, nascido em 1935 na localidade de Karm Asfour, no Líbano, por "operar casa de câmbio sem a devida autorização" do Banco Central.

Em 2008, o nome de Chater voltou a aparecer em uma investigação da PF que averiguava participação do deputado federal José Janene (PP-PR), morto em 2010.

Ao longo de meses, desde 2013, ele teve seus telefones interceptados pela PF. Nas conversas, segundo a polícia, surgiram indícios de que Chater operava remessas de dinheiro para o exterior por meio do chamado "dólar-cabo", uma modalidade clandestina e ilegal.

"Se precisar de uma conta para colocar reais, e depois transferir para outro lugar, eu te arrumo", diz Chater numa das gravações. Ele atuava em conexão com outro doleiro, Alberto Youssef.

Segundo a PF, o Coaf (unidade de inteligência financeira do governo federal) detectou movimentações financeiras de R$ 124 milhões "em operações financeiras suspeitas" do grupo de Carlos Chater.

Em depoimento à Justiça Federal, o gerente geral do posto de gasolina, Ediel Viana da Silva, afirmou que no local havia entregas de dinheiro em espécie para políticos de Brasília.