Folha de S.Paulo

O que é crônica? Três cronistas tentam responder


CRÔNICA

Encerrando o primeiro dia do Encontro Folha de Jornalismo, nesta quinta (18), no MIS (Museu da Imagem e do Som), em São Paulo, três dos principais cronistas da imprensa brasileira discutiram um gênero que é tradição no país.

Questionados pelo mediador, Alcino Leite Neto, editor do Três Estrelas, selo editorial da Folha, começaram falando sobre o que diferencia a crônica, gênero popular na imprensa brasileira desde o século 19, do colunismo político ou opinativo.

A atriz Fernanda Torres, colunista da Folha e que estreou na literatura com o romance "Fim" (mais de 200 mil exemplares vendidos), lembrou ter sido informada recentemente, por uma editora inglesa, que nenhum país dá tanta atenção à crônica como o Brasil.

E especulou se o fenômeno deriva de ser um país com tendência menos acadêmica, "um país do improviso e do sentimento pessoal em relação às coisas".

O escritor Luis Fernando Verissimo, que escreve nos jornais "O Globo" e "O Estado de S. Paulo", lembrou que "sempre tivemos escritores cronistas, começando por Machado de Assis", e alguns dos maiores escritores brasileiros se mantiveram cronistas, antes de tudo.

Arriscou que o gênero "dá uma liberdade que nenhum outro dá" e lembrou Antonio Maria (1921-64), um de seus favoritos, que escrevia "texto sério, humorístico, aproveitava como ninguém a liberdade da crônica". Ele brincou: "Crônica é tudo aquilo que a gente disser que é crônica".

O escritor Ruy Castro, colunista da Folha e autor de biografias de Nelson Rodrigues e Garrincha, contou que fica "constrangido de passar a semana inteira falando abobrinha", na página 2 do jornal, daí ter começado a alternar os textos com análises mais próprias do colunismo político.

Ele, Torres e Verissimo concordaram quanto ao predomínio cada vez maior da crise política sobre os demais assuntos. "O grande problema para mim, na Ilustrada, é escrever sobre a arte", disse a atriz. "Porque a realidade está impressionante."

Verissimo concordou, dizendo que "a realidade brasileira nos tornou a todos monotemáticos: Dilma, Lula, o que vai ser deles?". Questionado sobre ser um cronista de esquerda na imprensa, hoje, respondeu haver alguns outros: "Não me sinto tão sozinho".

Os debatedores discorreram também sobre o uso da língua nas crônicas. "Essa coisa do advérbio...eu me policio. Toda que vez que vejo um 'mamente' eu vou cortando" afirmou Fernanda Torres. Ruy Castro concordou e acrescentou: "'Por outro lado' é imoral".

O Encontro Folha de Jornalismo prossegue nesta sexta (19), a partir das 9h, com mesas sobre as crises econômica e política e o jornalismo de opinião. O ciclo de debates celebra os 95 anos da Folha, maior jornal do país em circulação e audiência.