Folha de S.Paulo

Jornalistas descrevem dificuldades da cobertura de conflitos


Cobertura em áreas de conflito

Com o tema "Não Atire, Sou Jornalista", na manhã desta sexta (19) no Museu da Imagem e do Som (MIS), em São Paulo, o Encontro Folha de Jornalismo discutiu a cobertura em áreas de conflito, da Síria à periferia de São Paulo.

James Harkin, free-lancer irlandês nos conflitos do Oriente Médio, autor do livro "Hunting Season", sobre a campanha de sequestro de jornalistas pelo Estado Islâmico, e Mayte Carrasco, free-lancer espanhola na região, se concentraram na cobertura na Síria, que descrevem como mais complexa do que em guerras anteriores –e exigindo mais jornalismo, não menos.

Harkin, que escreve regularmente para "Vanity Fair" e "Guardian", entre outros veículos, diz que o país mostrou que as novas guerras não cabem na "busca preguiçosa por heróis" que o Ocidente costumava empreender.

Grupos antes vistos como "o mal" se transformam depois no "bem". Para revelar de fato o que acontece, seria necessária maior presença jornalística, enquanto a crise no setor, pelo contrário, reduz os recursos.

Ele alertou que o vazio está sendo preenchido por jornalistas ligados a organizações não governamentais ou mesmo órgãos de inteligência e não passam de "relações públicas, pura propaganda".

Carrasco, que escreve para "El País", "La Nación" e outros, foi pela mesma linha, acrescentando que "o jornalismo cidadão não existe; ninguém vai ao médico e pede um médico cidado". Ela disse que o jornalismo profissional, na Síria e em outros conflitos, enfrenta violência e sequestros como não acontecia antes em coberturas de guerra. Os jornalistas se tornaram preciosos aos grupos em luta, para trocar por dinheiro ou protagonizar execuções em vídeo.

A única alternativa para quem quer cobrir a guerra é trabalhar "embedded", ao lado de algum dos grupos, o que acaba expondo os jornalistas a mais violência, disse ela. Carrasco também sublinhou que a Síria mostra que os free-lancers, não vinculados diretamente a veículos, são abandonados pelos órgãos para os quais colaboram, o que ela credita à crise no setor.

O repórter especial da Folha João Wainer, que dirigiu os documentários "Junho - O Mês que Abalou o Brasil" e "Pixo", abordou o que chama de "guerra não declarada na periferia de São Paulo". Questionou a maior atenção dada à repressão da polícia contra manifestantes e jornalistas "na avenida Paulista", em contraste com a falta de cobertura sobre as ações da mesma polícia nos bairros.

"A gente tem uma guerra civil muito perto de casa", afirmou, dizendo que a falta de atenção, no caso, não pode ser creditada à crise do jornalismo profissional. "Eu vou a pé até o local do conflito. É muito barato." Para ele, o problema da imprensa, no caso, é que "as pessoas estão anestesiadas" quanto à violência na periferia.

Questionado pela mediadora, a repórter especial e colunista da Folha Patrícia Campos Mello, sobre a possibilidade de um conflito mais aberto no Brasil, Wainer chamou a atenção para o Rio de Janeiro. "Depois da Olimpíada, vai ter problema nos morros", afirmou, detalhando tensão em várias favelas "pacificadas".