Folha de S.Paulo

Vida de jornalistas é mais lucrativa para EI do que de sírios, diz repórter


O irlandês James Harkin foi professor de teoria política na Universidade de Oxford, no Reino Unido, e analista de novas tendências em tecnologia antes de se tornar jornalista.

Autor do recém-lançado "Hunting Season" (temporada de caça, em tradução livre), sobre o fortalecimento do Estado Islâmico e sua campanha de sequestros de estrangeiros, Harkin se especializou, desde 2011, na cobertura da guerra na Síria.

"Repórteres têm corrido cada vez mais riscos em conflito, mas as pessoas que nos ajudam ainda são as que se colocam em perigo ainda maior."

*

Qual é o papel do jornalista em áreas de conflito?
É encontrar fatos, lapidá-los, poli-los, ter certeza de que são autênticos e apresentá-los ao mundo, como se faz com diamantes. Só que hoje há uma "angelinajoliezação" [em referência à atriz Angelina Jolie, embaixadora da ONU] da política em guerras: você vai para o conflito, aponta os bons e os maus, sem articular esses papéis.

Esse apelo, típico da era do humanitarismo, se converteu em uma espécie de narcisismo: quando o sujeito vai para a zona de conflito descobrir como aquilo nos afeta.

De que forma esse narcisismo se expressa?
Uma reportagem sobre um sírio morto não é uma grande história para a mídia ocidental. Mas a história sobre um jornalista ocidental sequestrado terá destaque e repercussão. A grande tentação é fazer com que histórias sobre a guerra na Síria sejam, na verdade, histórias sobre nós. E isso tornou as coisas piores.

Isso colaborou para tornar jornalistas alvos do EI?
Nossas vidas valem tão mais que a vida dos sírios e dos terroristas que é fácil para o Estado Islâmico lançar mão disso para criar terror.

Nos tornamos uma commodity cara para o EI, pois eles obtiveram 40 milhões de euros dos nossos governos para libertar 50 europeus. Mas esse fenômeno tem menos a ver com jornalismo do que com o Ocidente e o valor da vida.

Cobertura em áreas de conflito