Folha de S.Paulo

Internet força jornais a evitar erros e definir norma para correções


EX-OMBUDSMANS DISCUTEM O DIREITO DE DEFESA

O convite para analisar a mesa do Encontro Folha de Jornalismo em que ex-ombudsmans discutiram o direito de resposta reviveu as minhas tenebrosas noites de sexta-feira, nos idos de 1994-96, dedicadas a escrever a coluna do defensor do leitor do jornal que agora faz 95 anos.

Pesava muito, como relembraram os ex-ombudsmans Caio Túlio Costa e Junia Nogueira de Sá e as atuais Tânia Alves (do jornal cearense "O Povo") e Vera Guimarães Martins (Folha), avaliar o desempenho de colegas. Tanto mais agora, em plena temporada de caça ao jornalismo.

Políticos imersos na corrupção e jornalistas profissionais entorpecidos pela ginástica ideológica, à esquerda e à direita, se regozijam com a perda de receita e audiência pela imprensa. Enchem a boca para falar mal da "mídia", dos "jornais burgueses", dos jornalistas "petralhas", do "PIG" (Partido da Imprensa Golpista).

O primeiro risco para o analista, ombudsman ou não, consiste em ser visto como quinta-coluna. Apontar defeitos, negligência e erros no trabalho alheio ainda equivale a delito punível com anos de solidão.

A mesa com os ombudsmans se concentrou sobre dois temas inter-relacionados e incontornáveis: erros e direito de resposta. E poderia ter avançado mais sobre a categorização dos problemas envolvidos e as nuanças que os embaralham.

Afirmou-se ali que não há erros grandes e pequenos, mas erros que precisam ser prevenidos e, quando ocorrem, corrigidos. Perfeito, em sua concisão. Mas ninguém chega nem à esquina guiado só por máximas lapidares.

Há, sim, erros grandes e pequenos –em suas consequências. Nem todos merecem ser corrigidos, como equívocos triviais de digitação. Mais importante: nem todos merecem direito de resposta.

Antes das nuanças, é bom contar com uma tipologia. Nas queixas que se dirigem contra a imprensa, costumam embaralhar-se três espécies distintas de problemas: erros factuais, diferenças de interpretação sobre fatos ou dados e percepção de ofensa por parte do personagem da notícia.

Erros factuais obviamente têm de ser retificados, ponto. De preferência numa seção destacada, como os Erramos da Folha, para não parecer que o meio de comunicação quer esconder que errou. Se tiver visibilidade, porém, não há grande perda se a correção sair em páginas incertas.

O segundo tipo envolve em geral autoridades ou instituições que discordam da maneira como estatísticas ou iniciativas são apresentadas. Recortes enviesados dos números, omissão de dados e pressupostos divergentes não raro conduzem a conclusões opostas sobre a mesma realidade.

Não há muito o que fazer, aqui. A melhor recomendação é recorrer a especialistas externos, na tentativa de enriquecer o debate com interpretações mais isentas.

Como há muitas zonas cinzentas nesse domínio, o melhor é dar espaço –na própria edição, na seção de cartas, na forma de artigos ou entrevistas– para o "outro lado". Mas com frequência se buscam avaliações alternativas de forma mecânica, só para constar, no que se evidencia o pulso fraco de alguns editores.

Coisa diversa ocorre quando uma pessoa, uma empresa ou um órgão de governo implicam com uma notícia apenas por não ser boa para eles. Não questionam a informação, apenas almejam extravasar sua contrariedade. Merecem no máximo a publicação de uma carta curta.

E o direito de resposta? Em que casos e situações se justifica conceder um espaço maior ou mais visível que uma nota no Erramos ou no Painel do Leitor?

Isso só tem cabimento nos dois primeiros tipos de contestação. E, mesmo assim, nem sempre será justificável desperdiçar papel de imprensa e o tempo do leitor com manifestações inócuas, do ponto de vista informativo.

O erro factual, por exemplo, pode ser devastador para uma reputação. Suponha que Lula e a mulher de fato nunca tivessem visitado o tríplex no Guarujá ou o sítio em Atibaia. Seria ridículo corrigir manchetes de tamanha repercussão só na seção Erramos.

No caso da diferença de interpretação, se a contestação for realmente plausível e a reportagem publicada, danosa para a imagem do noticiado, também caberia dar destaque à resposta.

O mais adequado seria um artigo, ou entrevista. Mas dá para imaginar uma reportagem reparadora mais alentada, na hipótese de a informação veiculada se mostrar perniciosa em meio a uma campanha eleitoral, ou gerar prejuízo comercial, artístico etc.

Em todas as situações, como assinalaram os ombudsmans, celeridade é essencial, sobretudo agora que as redes sociais amplificam em segundos o efeito do que se comunica. Nesse sentido, é bem-vinda a lei 13.188/2015, que abreviou prazos e ritos para que se garanta na Justiça o direito de resposta.

O Encontro Folha de Jornalismo deixou uma coisa bem clara: por motivos bons, maus ou piores, a imprensa está em xeque por toda parte; não pode mais se dar ao luxo de errar como erra e de arrastar os pés para se remendar.

Veja os bastidores do Encontro Folha de Jornalismo:

Encontro Folha